Para quê compreender a arte?

Poeta-e-Aranha-300x200 Para quê compreender a arte?

A partir do espírito e com retoque do lado mais criativo do génio humano, chega ao público, para ser contemplada e até mesmo estudada – é a obra de arte. Entretanto, apesar de ser uma criação que vem do interior do artista ou da consciência colectiva de uma equipa de criadores, a conotação social da mesma é inevitável, uma vez já prever que a sociedade reivindique que a mesma apresente uma série de valores que se encaixam na sua estrutura axiológica.

Uma espécie de braço de ferro (apesar de não declarado) tem-se levantado entre os cultores de arte/estudiosos e o público. Os primeiros que criam e definem as regras para o desenvolvimento das artes, preocupam-se muito com a forma enquanto o público preocupa-se com o conteúdo. Por causa disso mesmo, há vezes em que uma obra bem recebida pelo público é descredibilizada pela crítica.

Esta polaridade leva a que se pense numa estética da criação, que seria em nossa perspectiva, o belo visto por quem cria, em função do que lhe é agradável e a “estética da recepção”, emprestando o conceito de Hans Robert Jaus, ou seja, o belo visto por quem recebe.

Portanto, para quem produz e está ligada a escolas de pensamento que primam pela tradição estética que marca a história, não se preocupa em grande medida pela reacção do público, que pode agitado por aquilo que Platão considerou de demagogia, podendo arrastar um bom cultor de artes a cair nas malhas da maioria, apesar de nem sempre estar certa.

Há que ter em conta que nem sempre a maioria, apesar de não ter uma educação artístico-cultural a altura, levanta questões banais. Não se pode contornar os aspectos morais que tem sido levantados em volta de certas obras consideradas de arte pelos seus autores e invadiram o mercado moçambicano e mundial. Não se pode igualmente negar que o nível de aceitação ou não de uma obra de arte pela sociedade pode revelar novas tendências de perspectivas estéticas.

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É por estas razões que a questão seria, ignorar as constatações de um público que julgamos não ter muito preparo para contemplar as obras de arte ou discutir a necessidade de compreensão por todos das obras tendo em conta alguns cânones? Ou feita de outra questão: para quê compreender arte?

A resposta é tácita. Deve-se compreender a arte, para que se construa uma sociedade ideal, se quisermos fazer uma analogia ao pensamento que Thomas Morris quis fazer passar quando na sua Utopia, desenha um modelo de sociedade justa ou equilibrada.

A verdade é que mais realista a obra se apresente, tem por visão, alterar uma realidade ruim e celebrar uma realidade doce, por isso, que toda obra de arte conduz-nos a uma condição humana ideal.

Deve-se compreender a arte, porque hoje, uma contemplação estética, já não é apenas suficiente, pois ela ganhou uma função utilitarista e está cada vez ao serviço das causas sociais, por isso que hoje, o sujeito não só recebe, como dialoga com a obra de arte, discutindo consigo mesmo percepções sobre os temas da essência e da existência.

A arte deve ser compreendida, na perspectiva do belo, defendida pelo romantismo e os seus expoentes como Leonardo Da Vinci e Michelangelo e que por sinal é a posição de muitos estudiosos de hoje, em que a produção artística é associada a determinados padrões que a história associa ao belo.

Deve ser compreendida na perspectiva do contágio, de acordo com a tese de Tolstói, segundo a qual a arte deve contagiar a determinados sentimentos ao leitor, ouvinte ou espectador. Estes sentimentos devem ter uma conotação moral positiva na perspectiva dos cânones sociais a que o receptor está inserido.

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Arte deve ser compreendida em todas as perspectivas possíveis e mais do que, tentar falar a língua do criador, o receptor deve dialogar inserido nela suas interpretações e contribuindo dessa forma para um debate público marcado pela pluralidade de pensamento e pelo sentido de uma sociedade ideal marcada por valores nobres da existência humana.

Jessemusse Cacinda

 

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