Ecos do 12 de Outubro: Má qualidade de ensino, culpa de todos

Quelimane (Txopela) – O secretario da Organização Nacional dos Professores da Zambézia Salvador Vatevene, defende que o problema da má qualidade de ensino não pode ser responsabilizado ao professor particularmente, pois no seu entender, para que haja realmente qualidade de ensino, deve haver uma acção combinada dos professores, pais e encarregados de edução, a sociedade e dos próprios alunos.IMG_1622-300x225 Ecos do 12 de Outubro: Má qualidade de ensino, culpa de todos

Vatevene falava esta quarta-feira, em entrevista ao Jornal Txopela, a margem das celebrações do dia 12 de Outubro, dia Internacional do Professor, minutos após a deposição de coroa de flores na Praça dos Heróis Moçambicanos, por ocasião da data.

Na ocasião, Salvador Vatevene explicou que a maior pretensão da organização da qual é secretário (ONP) é fundamentalmente garantir que os direitos dos associados sejam observados e por via disto, prestar o seu contributo para que o ensino tenha a qualidade desejável.

Na temática da qualidade, o nosso interlocutor disse reconhecer a pertinência das exigências feitas ao professor, mas este só não pode fazer muito para que isto seja realmente conseguido.

Num outro passo, Vatevene acusou a sociedade de não estar a compreender cabalmente a missão do professor e instou a que se procure compreender para que o nível de exigência a esse profissional seja ajustado à sua missão. “Temos que fazer uma ligação entre o professor, aluno e pais e encarregados de edução, porque para educação das crianças o trabalho não depende apenas do professor”, disse.

A fonte admitiu que uma das grandes questões que coloca em causa a qualidade de ensino é o absentismo dos professores e nessa vertente, este assegurou que tem estado a ser travada uma grande luta para que os associados e não só compreendam que a presença do professor na escola é de capital importância para que o processo ensino aprendizagem seja a medida das necessidades do país. “Não é nossa característica, não é nosso estilo de trabalho que os professores abandonem este tipo de prática porque não nos dignifica”,- exortou.

Pedido para falar das promoções e mudanças de carreira dos professores, o nosso entrevistado mostrou-se optimista ao dizer que esforços por parte do sector estão sendo feitos mas pela grandeza da classe ainda tem que se fazer um pouco mais.

“A mudança de carreira acontece mas o que se passa é que nos como professores somos uma classe maior, anualmente temos novos colegas contratados, outros que terminam níveis de ensino, então há medida em que estes terminam seus níveis precisam de mudar, daí que a nossa luta ainda continua”, disse.

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Refira-se que a ONP na Zambézia conta com um universo de 18.620 membros de um universo de cerca de 30.000 professores que a província possui.

Professores dividem opinião

A reportagem do Semanário Txopela procurou ouvir vários professores em exercício para deles compreender o que realmente esta por de trás de tanta pressão nos nossos tempos no concernente a exigida qualidade de ensino e estes dividem opiniões.

A titulo de exemplo, Daviada Ande Andate, experiente professora em exercício na EPC 17 de Setembro em Quelimane, aponta que a luta pela sobrevivência é que tem estado a colocar em causa a actividade do professor nos últimos tempos, pois no seu entender os novos professores entram para a carreira não por vocação mas sim para resolver dificuldade financia pessoal e familiar, disse a nossa fonte tendo sublinhado que não pretende com isso colocar em causa a reputação dos novos professores.

“É importante que as pessoas abracem a profissão porque realmente sentem alguma inclinação pelo trabalho que querem exercer, e não para serem ricos e ou terem muito dinheiro porque se fazerem a actividade por dinheiro não vai dar em nada, pois desde muito os professores nunca foram ricos no verdadeiro sentido do termo”, – aconselhou.IMG_1622-300x225 Ecos do 12 de Outubro: Má qualidade de ensino, culpa de todos

A nossa entrevistada avançou a necessidade de os pais fazerem acompanhamento aos seus educandos como forma de criar condições para que as crianças aprendam e aponta para as escolas estatais como sendo o local onde os pais menos se interessam pelos filhos comparativamente às escolas privadas.

Maria Duarte, professora em exercício na EPC de Maracua, Posto Administrativo da Madal, foi uma das entrevistadas pela Reportagem do Semanário Txopela e avança que os professores devem ser um pouco mais responsáveis da actividade de praticam e que eles são basicamente os pilares, embora os pais e encarregados de educação façam parte integrante deste processo incluindo outros actores sociais sem no entanto descartar o esforço dos próprios alunos que na verdade é mais importante.

A professora aponta que há tendência de os professores correrem com a matéria para terminar o plano e isso não pode acontecer. “Deve haver calma e serenidade na leccionação não se pode correr principalmente nas classes mais baixas por que lá está toda construção da criança e se as coisas não forem acertadas as crianças perdem-se até aos níveis subsequentes. “Esteve num dia a controlar prova numa sala da 10ª classe e maior tristeza que tive foi de ver alunos nesta classe a construir frases sem sentido e isso despertou-me atenção de termos que apertar o cerco nas classes iniciais”, – disse.IMG_1622-300x225 Ecos do 12 de Outubro: Má qualidade de ensino, culpa de todos

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Por seu turno, Alexandre Conhece, por sinal formador de gestores escolares em Quelimane e ex-director dos Serviços Distritais de Educação Juventude e Tecnologia de Nicoadala, disse à nossa reportagem que são vários os desafios que os professores têm para que o fim último do processo educativo, nesse caso a formação do homem novo, seja uma realidade.

Este começou por apontar que a província da Zambézia particularmente e o país de modo geral, tem vindo a conhecer avanços significativos do ponto de vista de expansão escolar e isso significa um ganho, pois as crianças deixaram de percorrer grandes distâncias para ter acesso a uma escola.

Embora assim, há desafios ligados a provisão de material didáctico, salas de aula mais condignas e melhoria do rácio aluno-professor.

Acima de tudo, os professores devem procurar especializar-se de modo que abordem as matérias com propriedade, pois o que acontece é que os professores querem leccionar tudo o que lhe aparece e isso não oferece forma ao processo educativo na medida em que pode correr o risco de especular algumas questões por falta de aprofundamento. “O professor deve dizer eu sei fazer isso. É verdade que já fomos formados em ensino geral mas para o ensino superior deve haver especialização para que fale as coisas com propriedade”, disse para depois acrescer que quando isso tornar-se uma realidade certamente será resolvida uma boa parte dos problemas ligados a falta de qualidade de ensino.IMG_1622-300x225 Ecos do 12 de Outubro: Má qualidade de ensino, culpa de todos

Já o director dos serviços distritais de Educação Juventude e tecnologia de Quelimane, Hélder de Araújo, diz que é preocupação do sector colocar em prática a medidas de que cada professor resida na sua zona de trabalho para evitar que este esteja sempre ausente e ou chegue sempre atrasado.

A fonte assegura que trabalho está sendo feito para que num futuro não muito longínquo esta medida possa ser posta em prática, pois segundo avança, o absentismo que tem se registado e que está a preocupar o sector, tem a ver em parte com professores que por exemplo moram em Quelimane e leccionam na Madal ou Maquival (distante de sua residência) e por pequeno constrangimento, quer mudança de temperatura, quer de transporte ou outro, o priva de se fazer presente no seu posto de trabalho, prejudicando assim o processo educativo do aluno. (Jacinto Castiano)

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