A sorte de Dhlakama — Egídio Vaz

O líder da Renamo é uma pessoa sortuda. Talvez por ser cristão. Mesmo assim, ele deve ser dos poucos filhos de Deus que, mesmo fazendo mal as coisas, o resultado final é sempre bom para ele. A prova disso é de que quem lhe segue as pegadas, leva. Não conheço nenhum alto funcionário ou colaborador da Renamo que não tenha sofrido as consequências do modus operandi deste movimento. Mas não é disso que quero falar hoje.
Hoje quero apenas fazer notar que a confusão que anda na Frelimo é de assustar o próprio Satanás. Normalmente a tarefa de dificultar o êxito de uma governação recai sobre a oposição. Mas desde que Nyusi tomou o poder, alguns membros da Frelimo tomaram para si a responsabilidade de dificultar quase tudo. São eles os responsáveis pela amplificação de mensagens caluniadoras da liderança do seu partido, são eles que se antecipam aos críticos, são eles que fazem propaganda do anti jogo. Isso tudo demonstra um mal-estar, uma espécie de frustração de um grupo com relação à alguns assuntos.
Que não hajam dúvidas. Desde que Nyusi tomou as rédeas do país, apenas está envolvido em resolver ou gerir problemas herdados: o massacre de Chitima, as cheias do centro e norte do país, a guerra e agora as chamadas dívidas ocultas.
Mas é sobre as dividas ocultas que agitam tantos, para além de alguma expectativa frustrada quanto a nomeação para cargos se direcção.
Outra verdade é esta: o país não está falido. Apenas está bloqueado. O interesse em retomar a normalidade com a comunidade internacional é claro. Mas esses, em nome da transparência dos seus povos e governos exigem algumas pré-condições. Ou seja, aparentemente, satisfeitas estas pré-condições, o país volta a normalidade. Mas atenção, esta é também uma boa ocasião para corrigir algumas más práticas, cortar as banhas e identificar os lesa-pátria. E é aqui onde, na minha opinião, a Frelimo de mais e 30 anos de existência, comporta-se como uma nené de três anos.
Em vez de se galvanizar em torno do seu líder, a Frelimo está repartida em grupos. Agora não se fala mais da Frelimo governada a partir da sua sede. Fala-se da Frelimo de grupos, que competem entre si para melhor projecção junto das bases.

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Egídio Vaz é historiador e consultor de comunicação e pesquisador de mídia e jornalismo há mais de 10 anos. É um respeitado analista político-social em Moçambique com artigos de opinião  publicados em órgãos de informação nacionais e internacionais.

Suspeito que a táctica é chegar no próximo ano, no Congresso, e tirar de lá melhores proveitos: representação nos órgãos sociais, decisão sobre a paz e guerra, renovação ou não do mandato do Presidente Nyusi, presença em órgãos do governo, etc.

Esta confusão também mostra um outro lado. De que Nyusi, afinal não é o que tantos pensavam que fosse: marioneta. A minha teoria é essa: por ser um Nyusi diferente do imaginado, então vamos prova-lo do nosso poder inviabilizador e ou até demolidor. É por isso que, no âmbito da implementação desta decisão, tenta-se inviabilizar a sua governação de várias formas. A própria ideia de um Nyusi sem ideias e força para governar vem de membros da Frelimo. Para mim isso é paradoxal. Para um partido de mais de 30 anos, qualquer um estaria em condições de governar bem o país pois foi justamente este princípio que norteou a aposta em Nyusi. A teoria foi que ele contaria com a experiência do partido na gestão do povo e das instituições. Mas parece-me que os que assim defendiam contavam com chorudas contrapartidas que até este momento tardam em chegar.
Não sei sinceramente se isso revela falta do foco ou pura ambição de grupo sobre o interesse nacional e da própria Frelimo.

Que não haja dúvidas: a cruzada que se move contra Nyusi terá consequências sobre os votos nas próximas eleições, independentemente de quem na altura estiver a dirigir o país. Fragilizar um partido inteiro e suas instituições em nome do interesse do grupo é comparável à um peixe da família do peixe-gato que come as suas próprias barbatanas e cauda em tempos de seca. Só que quando a chuva cai, este mesmo peixe já não consegue nadar por lhe faltarem os membros. Morre afogado.
É importante melhorar as estratégias de reposicionamento de grupo e indivíduos sob o risco de atirar-se a água do bebé com ele junto. O papel da Frelimo na sociedade é tão importante justamente por estar a governar o país. Quem actua para inviabilizar o processo de paz, prejudica a Frelimo, eleitoralmente falando. Quem inviabiliza as investigações às dívidas prejudica a Frelimo porque perpetua o problema criado e a confiança dos cidadãos. Quem espalha calúnias pelas redes sociais sobre dirigentes do estado, reforça a ira popular contra as instituições e a suas lideranças. Este todo trabalho deveria ser da responsabilidade de quem pretende a Frelimo fora do poder. Mas estranhamente é justamente de seus membros que vêm as balas mortíferas. Isso não é democracia interna. Isso é praticar a eutanásia. Quem se aplica a injecção letal morre.
É por estas razões que digo que Dhlakama é mesmo um cristão sortudo. De qualquer jeito ele sempre tem algo a ganhar.

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