A DOR DA PERDA…! —Danilo Tiago

Danilo-Tiago-240x300 A DOR DA PERDA…! —Danilo Tiago

Danilo Tiago

“A doença é uma janela que nos espreita a morte”. Mia Couto

Passavam quase seis meses desde que recebi o último telefonema do primo Gelásio Maphorissa. Desde lá até cá ainda não havíamos falado. Por imperativos profissionais, ele vive numa área sem cobertura de rede telefónica, raras são as vezes que se desloca para uma área onde há possibilidade de comunicação.
– Primo a tia Nola, aquela de quem uma das tuas irmãs mais novas herdou o nome não resistiu a luta que travava há mais de 3 anos com o câncer da mama. Aos 56 anos de vida, a matriarca da família Piedade deixava o mundo dos vivos para se transformar em pó tal como as escrituras nos ensinam.
Fiquei inerte por alguns minutos.
Na verdade, a tia Leonor da Piedade já havia passado do estádio 0 que corresponde ao Carcinoma Lobur in – situ (CLIS) em que os médicos aconselharam a fazer exames regulares para detectar quaisquer sinais adicionais do cancro da mama. Já estava no Estádio III a em que por opção própria decidiu submeter-se a radioterapia. A mastectomia estava fora da sua agenda.
Infelizmente quis o destino que o cancro vencesse a batalha.
Não me fiz presente ao velório da tia Nola. Encontrava-me longe do local onde iriam decorrer as exéquias fúnebres da finada. Liguei ao tio Mponda o marido da tia para dar as devidas condolências.
O desaparecimento físico da tia Nola trouxe-me a memória as palavras de Garret “ porque, Senhor, do Caos tumultuário tão bela e esperançosa ergueste a vida se ao pé da vida colocaste a morte”?
– Nada é eterno. O café esfria, a relação esmorece e a vida um dia tem o seu fim. Conclui.
Era difícil, mas a partir daquele momento o tio Óscar Mponda devia começar a habituar-se com a ideia de ser viúvo. Ele que ao longo da sua vida dedicou – se apenas a dois amores: a tia Nolinha e a formação do homem novo. Docente desde as camadas iniciais de ensino nos longínquos anos de 76. Homem da geração 8 de Março, um grande professor.
Três meses depois da morte da tia Leonor, nova tristeza se abatia no lar dos Mpondas. Katlyn Mponda a filha mais velha do tio sucumbia em circunstâncias estranhas.
Psicóloga de formação, acabava de terminar o seu mestrado e a par do consultório que geria, era docente de uma das instituições de ensino superior da cidade.
Acabava de descer da sua viatura em direcção aos seus aposentos, quando no pátio do seu quintal teve uma queda repentina e sem motivos aparentes. O seu marido tentou em vão reanimá-la. A morte e o destino a haviam escolhido. Morreu de derrame cerebral. Concluiu o relatório clínico do hospital depois da autópsia a que o corpo foi submetido.
Foi um AVC isquémico que ceifou a vida precoce de Kat. Tinha apenas 24 anos de idade quando a morte a surpreendeu sem recurso de apelo e muito menos de agravo. Os vasos que levam sangue ao cérebro entupiram.
Em menos de quatro meses, duas mortes, perdas irreparáveis na família Mponda.
– É um castigo divino, só pode ser – disse tio Óscar aos choros. A morte é algo natural tio. A vida é efémera, podemos viver quanto tempo for necessário, um dia iremos morrer, disse – lhe numa tentativa vã de lhe levantar o astral.
– Foram mortes encomendadas, só pode. Aquilo estava destinado ao próprio Óscar, mas como é homem “bem tratado por um curandeiro” o feitiço não o atingiu, e em consequência atingiu os seus parentes mais próximos – diziam os mais pessimistas e boateiros de primeira
Tentei procurar saber porque afirmavam tal facto.
-“ O seu tio, depois de ser indicado Director Distrital da Educação Juventude e Tecnologia da cidade, cogita-se a possibilidade de ser indicado a Governador de uma dessas Províncias. Há quem não tenha gostado da “brincadeira” e encomendou-lhe a morte”- Disseram-me.
– “Há quem pense que é uma ascensão meteórica, a velocidade de jacto. Muitos não possuem as suas qualificações profissionais e muito menos habilitações literárias, mas porque tem confiança no partido querem que sejam eles os indicados”. Concluiu uma terceira pessoa.
Mas a ser verdade a possibilidade de nomeação a Governador, porque o queriam matar?
O currículo do tio é rico. Longos quilómetros de estrada percorridos como professor primário, secundário e universitário. Duas licenciaturas, um mestrado e um doutoramento na forja. Inúmeras mentes por ele “lapidadas”. Chefe de várias secções e director das varias escolas por onde passou…tal nomeação seria mais que merecida. A sua competência é irrepreensível.
Isto é África. Aqui cada morte tem mil e uma interpretações. A causa de morte que consta nos certificados de óbito devidamente passados pelos médicos é apenas mais uma interpretação científica. Disse eu para comigo mesmo.
A tia Nola morreu de câncer da mama, uma luta que travou durante anos. Nem mesmo a radioterapia a curou.
A prima Kat, morreu de acidente vascular cerebral. Causas de mortes devidamente explicadas pelos médicos. Porque haveria eu de pôr em causa os conhecimentos dos homens da bata branca?
Superstição? Inveja pelo bolo e cargos? Bom… isto é África.
Depois da missa de corpo presente na Capela da nossa Senhora de assunção, privei com o tio antes mesmo de levarmos o corpo para inumação no cemitério de S. João.
– Os filhos podem enterrar os seus pais, seus avós…mas quando um pai enterra os seus filhos, a dor é imensa.
De facto, no semblante do tio Óscar pude ver a verdadeira dor da perda…

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