AS LIÇÕES DE FREETOWN

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Danilo Tiago

Eram 11 horas e 30 minutos (hora Francesa) do dia 17 de Janeiro de 2015 quando os irmãos Said e Cherif Kouachi, vestidos de preto e armados com fuzis Kalashnikov, irromperam no 11º arrondissement Paris, sede do semanário satírico Charlie Hebdo e desataram a “regar”’com munições de forma impiedosa quem cruzasse os seus caminhos.

Resultado: 12 pessoas mortas incluindo colaboradores do semanário, 5 feridas gravemente.

O mundo se comoveu, frases como JE SUIS CHARLIE (EU SOU CHARLIE e tradução livre) e as cores da bandeira francesa tomaram de assalto os murais nas redes sociais com maior destaque o facebook. Éramos todos Charlie.

21 horas e 16 minutos de 2015 hora francesa, no teatro Bataclan, no Boulevard Voltaire no 11º arrondissement, terroristas abriram fogo contra o publico de mais de 1500 pessoas que assistiam ao espectáculo da banda de Rock dos EUA Eagles of Death Metal. Eram homens vestidos de preto e munidos de fuzis AK – 47. Os atentados ficaram conhecidos como o Massacre do Teatro Bataclan. Um massacre reivindicado pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

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Imagem: Aljazeera

Resultado: 137 mortos incluindo 130 vítimas e 7 terroristas.

3 de Junho de 2017, 3 homens que se acredita pertencer as fileiras do Estado Islâmico, atropelaram vários pedestres na ponte de Londres e depois, após abandonarem o veiculo, com recurso a arma branca do tipo faca, esfaquearam varias pessoas no famoso Mercado Borough e num restaurante da rua Stoney. Os homicidas acabaram sendo mortos pela Policia Londrina logo em seguida. Pelo menos oito pessoas foram mortas no atentado, outras 48 ficaram feridas (21 em estado critico).

São vários os casos de ataques terroristas que comoveram o mundo e apelaram para uma solidariedade sem precedentes. Todos éramos franceses, éramos ingleses, éramos parisienses, éramos londrinos.

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Segunda – feira, dia 15 de Agosto de 2017, mais de 400 pessoas perderam a vida soterradas devido a um deslizamento de terra em Freetown, Serra Leoa. Quase ninguém comentou sobre isso, nem a media africana fez questão de relatar a situação, nem se quer houve uma nota de rodapé relatando o facto.

As redes sociais apenas se entretinham com a disputa de bens de um casal que ao que tudo indica goza de estatuto público de “celebridade” nesta pérola do Indico.

Dois dias depois do deslizamento de terra ocorrido em Freetown, 13 pessoas morrem em Barcelona vítimas de atentado ao que tudo indica terrorista. A nossa comoção mais uma vez se fez sentir. Deixamos as nossas diferenças de clubes futebolísticos de lado, não se tratava de Real Madrid e muito menos do Futebol Clube de Barcelona, tratava – se sim da solidariedade com o povo de Barcelona.

Em Julho do presente ano 27 pessoas morreram na República Democrática do Congo vítimas de naufrágio de um barco causado aparentemente por negligência dos pilotos.

Nem uma palavra de solidariedade, nem uma comoção mundial. Foram mais uns mortos nesta África cada vez mais martirizada e votada ao esquecimento colectivo.

Não quero de forma alguma convidar a quem quer que seja para comover – se com os mortos em Freetown e muito menos no Congo Democrático. Todos temos o direito de chorar pelos mortos que entendermos merecer as nossas lágrimas. Mas um facto é certo: quando choramos 13 mortos em detrimento de 400, algo esta mal. O nosso silêncio ensurdecedor, a nossa indiferença para com os acontecimentos trágicos em África são de bradar os céus e que só alegram ao diabo.

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As lições que devemos tirar a partir de Freetown são as de que as vidas não são iguais. Chora – se por um morto em Barcelona e se ignora por 400 vidas perdidas em Freetown.

Para terminar esta reflexão deixo aqui uma citação que incita a uma outra reflexão “se as feridas do teu irmão não te causam dor, a tua doença e mais grave que a dele”.

Oremos pelas vítimas de Freetown e pelas demais vítimas de catástrofes naturais e terrorismo que são voluntariamente ignoradas pela media mundial, a começar pela media africana.

SHALLOM

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