Quando não há investigação policial, só se pode matar para demonstrar trabalho? – Jessemusse Cacinda

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Jessemusse Cacinda (Jornalista)

Não sou perito em questões de investigação policial, mas como amante de literatura e coordenador da primeira antologia de contos criminais moçambicanos, ganhei o gosto pela ficção policial, um género que é dos mais lidos do mundo e pouco produzido em Moçambique. Eu justifiquei no dia do lançamento do livro, que a ficção policial serve para aumentar a nossa imaginação em relação a processos de investigação de um determinado crime e ajuda a precaver-nos, dos mesmos, enquanto cidadãos. Eu mesmo, depois de ler clássicos do géneros, principal os nórdicos e americanos, vi a minha “imaginação policial” aumentar. Por isso, que quando houve, o caso dos baleamentos de cidadãos na Matola, de cidadãos acusados de pertencer a uma quadrilha que pretendia assaltar um supermercado, não parei de construir um monte de imaginações.

Passei pelo local no dia seguinte e quando conversava com amigos, fizemos a reconstrução dos factos que pareciam não bater. Diz-se que os cidadãos, acusados de pertencerem a uma quadrilha, envolveram-se em troca de tiros com a PRM e que esta os silenciou em legítima defesa. Como é que numa situação de troca de tirsos, a polícia sai ilesa? Não estou a referir que os nosso agentes devem ser fáceis, mas pelo menos, nem um tiro que tenha batido um guarda-lama do “não pisa pneu”, me parece ser estranho. Outro aspecto, é o facto de ter-se encontrado uma arma, com os supostos meliantes, o que em termos comparativos, a policia estava numa situação de vantagem, o lhes permitiria muito bem, captura-los e detê-los, sem precisar derramar tanto sangue, pois, pelo menos, na ficção policial, espero que na prática seja assim, a arma deve ser o último recurso. E depois, esta de defender-se matando a rajada, me levanta outra estranheza. Aquele número de mortos, não representa nenhum acidente. Nota-se claramente, uma vontade deliberada de tirar a vida aos cidadãos.

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Aqueles cidadãos foram sancionados com “a pena de morte”, uma pena que é muito comum a multidão exigir. A multidão, imbuída com o espírito da “pós-verdade” não preocupa com os factos, mas com as caracterizações. Aliás, Platão era contra o poder da multidão, porque presenciou a mesma a condenar o seu mestre, Sócrates, a beber a cicuta. Anos mais tarde, a multidão soltou Barrabas e condenou Jesus, o Cristo. Hoje, a multidão defende linchamento em Sofala. E quando a polícia violou os direitos humanos na Matola, a multidão ficou satisfeita. A lógica do consenso, é típica da multidão e por via disso, um atentado a racionalidade. Diante disto tudo, vale a pena questionar, se democracia hoje, deveria ser poder do povo, ou então princípios e valores, que garantam o bem comum. Pois, a racionalidade nos leva a acreditar que houve intensão deliberada de matar, mas a multidão agradece a polícia que combate os criminosos.

Já agora, porque? Estará a polícia a tentar mostrar trabalho, já que os seus processos investigativos, tem-se mostrado ineficientes? Estará a PRM a procura de bodes expiatórios, para em seguida, deixar passar “grandes crimes” que estão a vir por aí? Enfim, tudo isto, preocupa. A única certeza que tenho, é que não se pode em nenhum momento, defender a polícia, porque ela violou os direitos humanos, particularmente o direito a vida. A PRM quer operar num estado de direito e ao mesmo tempo, num estado de tensão e violência, onde a lei do mais forte, impera.

Se a polícia quer combater o crime, que sofistique os métodos e meios de investigação. Que contrate agentes que ao menos leiam romances policiais e que por via disso, aumentem a sua imaginação e, quando estiver diante de criminosos, que os prenda e sejam submetidos a julgamento e deixe, a tarefa de condenar, aos tribunais. É assim como funciona um estado de direito. Um estado que se quer democrático, pelos princípios e não por dar voz, a multidão. Um estado que respeite a vida e a dignidade dos seus cidadãos.

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