Confirmadas as previsões, o que se pode esperar da democracia angolana? — Jessemusse Cacinda

Jessemusse-Cacinda1-300x300 Confirmadas as previsões, o que se pode esperar da democracia angolana? — Jessemusse Cacinda

Jessemusse Cacinda (Jornalista)

Quando fui chamado a fazer uma antevisão do processo eleitoral havido na semana passada em Angola e que culminou com a vitória do MPLA, nos moldes em que havia previsto, isto é, com menos votos do que nas eleições anteriores, reduzindo o número de deputados de 175 para 150 na Assembleia Nacional e assistindo assim, uma UNITA (maior partido da oposição) a registar um resultado histórico ao subir de 32 para 51 deputados, de acordo com dados provisórios divulgados pela comissão eleitoral daquele país na última sexta-feira, sentí-me com compromisso de olhar para o futuro.

E porque futuro é a oportunidade que temos de definir o curso da humanidade, me lanço mais uma vez, nesta dura e arriscada tarefa de prever algo que pode falhar e começo por analisar os contornos do processo, começando pelo facto de estarmos já a ir para uma Angola sem José Eduardo dos Santos, que permaneceu no poder durante 38 anos, isto é, logo após a morte de Agostinho Neto em 1979.

Apesar disso, tem lá um presidente, João Lourenço que fora ministro da defesa do governo do presidente cessante, o que, pode significar uma continuidade da ideologia governativa do MPLA, mas por se tratar de uma nova figura, seguramente que vai querer deixar a sua marca para que seja realmente visto como presidente e não sombra de José Eduardo dos Santos.

Entretanto, a redução dos votos do MPLA e a consequente ascensão da UNITA não pode ser ignorada, isto pode significar alguma mensagem que os eleitores pretendem deixar passar, por isso que, se o novo governo angolano não acomodar algumas reivindicações, pode ser condenado ao insucesso.

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Entretanto, há já sinais de que as coisas podem vir a ser melhor, pese embora, será de forma tímida, naquele país do atlântico. Basta olhar para o MPLA a chumbar a proposta de José Eduardo dos Santos em se tornar presidente emérito e permanecer com noventa porcento de todas regalias, deixa claro que dentro do próprio partido, os membros têm consciência de que não libertaram o seu país para oferece-lo a um ditador. Isto demonstra que Ze Du, vai ser suavemente isolado. Para além de que com as quedas que a economia registou, o país encontra-se com uma capacidade reduzida de resistir a pressão internacional, isto significa que alguns valores vitais da democracia terão de ser acomodados.

Nestas eleições, houve muitos vencedores. Ganhou o MPLA que voltou a afirmar-se como partido do povo angolano. Ganhou a UNITA que aumentou quase 20 deputados em relação a mandato anterior. Ganhou o povo que apesar das críticas ao próprio processo, foi exercer um direito fundamental em democracia, o de escolher os seus próprios dirigentes, mas também ganhou José Eduardo dos Santos.

Ze Du, pode considerar-se vitorioso porque organizou um processo de transição, o que o torna neste momento, diferente de Ribert Mugabe. Agora, ele deixa o seu país para seguir um rumo diferente. Este rumo deverá ser a democracia. E a democracia não se faz somente com eleições, faz-se com respeito a diversidade, liberdade de expressão e governação transparente. Oxalá que isso aconteça, porque caso não, não fará sentido algum a sua saída.

Pessoalmente, acredito que Angola, poderá depois destas eleições registar passos importantes na sua democracia e aqui, também vislumbra-se uma oportunidade para as organizações da sociedade civil emergirem e se fazerem notar participando no debate público em volta dos problemas do país, assim como conquistarem o seu espaço para ajudar na construção de uma pátria cada vez melhor, mais humana e menos desigual.

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