NÃO HÁ MORAL QUE RESISTA QUANDO A FOME APERTA- Danilo Tiago

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Danilo Tiago

Crónica de uma viagem à Inhambane II (Conclusão)

MÃO – DE – OBRA INFANTIL AO LONGO DA ESTRADA NACIONAL NÚMERO 1: NÃO HÁ MORAL QUE RESISTA QUANDO A FOME APERTA

Voltar a usar a EN1 para chegar a Inhambane ido de Pemba, quase 6 anos depois foi o mesmo que rejuvenescer pelo mesmo período, logo eu que estou a correr a velocidade de jacto para saltar o limite da juventude…precisava voltar a sentir aquela adrenalina.

Neste tipo de viagens, o mais recomendável é fazer – se transportar de uma viatura particular, pois permite que o viajante percorra de lês a lês (na verdadeira acepção da palavra) o solo pátrio. Mas muito mais do que percorrer a nação moçambicana de lés a lês, a viagem permite ao viajante (passe a redundância) viver uma experiencia única, de viajar de norte a sul. Cada paragem é um ponto para aprender a conhecer melhor o país, o nosso Moçambique amado.

A EN1 tem a particularidade de ligar o país de um extremo ao outro, de norte a sul para ser mais específico. E por incrível que pareça, para alem de ter essa “sui generis” particularidade, o troço em si serve de trânsito de vários tipos de automóveis, desde os ligeiros aos pesados que transportam passageiros e mercadoria diversa.

Devia na minha modéstia opinião merecer uma atenção redobrada por quem de direito, fazendo – se sempre que possível a necessária manutenção. É um troco de suma importância para o país, na medida em que não só permite o trânsito de passageiros, moçambicanos na sua maioria do norte a sul e vice – versa, como também permite o escoamento de mercadoria de uma zona a outra. É um troço de enorme importância para o desenvolvimento do país.

O que vi desta vez, volvidos quase seis anos, foi uma EN1 “votada ao esquecimento”, estradas completamente esburacadas, órfãs de quem de direito, deixadas a sua sorte. Na verdade não é o troco todo, mas uma boa parte está nessa situação de total danificação e votada ao completo abandono.

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Em parte até fui levado a pensar que fosse consequência do recente conflito armado que fustigou a zona centro durante quase dois anos, porque é exactamente no troço da EN1 localizado na zona centro que a situação me parece caótica. Mas não, o conflito armado até pode ter feito os seus estragos, mas a travessia irregular de automóveis de grande tonelada transportando mercadoria diversa aliada a demanda no uso da EN1 podem na minha óptica ter acelerado a degradação daquela importante via.

E é muito arriscado fazer – se transportar de veículos cuja suspensão é muito baixa, primeiro são os amortecedores que rapidamente se vão e a seguir é a própria viatura que fica com o tempo de vida reduzido.

Se em parte a EN1, aquela que deve merecer especial atenção por quem de direito está “votada ao esquecimento”, há quem vê nisso uma oportunidade de fazer o seu ganha – pão.

Na zona centro vi de forma recorrente meninos de palmo e meio, na posse de tambores e pás cuja missão é a de escavar nas bermas das estradas areia para tapar os buracos que se encontram no meio da estrada e em troca exigem dinheiro, qualquer que seja o valor.

Quer dizer, eles substituíram a Administração Nacional das Estradas, exercem a troca de dinheiro a actividade adstrita a uma instituição pública como é a ANE.

Não fosse a idade e o facto de ao invés de reparar um dano no lugar do dano, estes causam um dano maior, porque senão vejamos: a areia retirada nas bermas da estrada implica cavar, criar mais um buraco nas bermas da estrada tornando esta estreita e tal areia quando lançada no buraco que se encontra no meio da estrada, isto não é nenhuma panaceia, é sim uma aspirina que serve para amenizar a dor de forma efémera, porque o buraco volta com o tempo principalmente se tivermos em conta a demanda de veículos que se fazem transportar na EN1.

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Ademais, não deve espantar a ninguém se cogitarmos a possibilidade de serem estes mesmos menores que na calada da noite vão retirando a areia que de dia puseram nos locais esburacados em troca de algum valor.

Entristece – me que aqueles meninos de palmo e meio estejam a exercer um trabalho infantil, pondo assim em causa todas legislações relativas aos Direitos das Crianças tais como: a Resolução n°. 19/90, de 23 de Outubro, que ratifica a adesão de Moçambique à Convenção sobre os Direitos da Criança; Resolução n°. 20/98, de 26 de Maio, ratifica a adesão de Moçambique à Carta Africana dos Direitos e Bem – Estar da Criança; Resolução n°. 6/2003, de 23 de Abril, ratifica a Convenção n°. 182 da Organização Internacional do Trabalho relativa à interdição das piores formas de trabalho das crianças e à acção imediata com vista à sua eliminação. Entre as demais leis a nível interno.

Não há moral que resista quando a fome aperta, mas convenhamos, aquilo que está acontecer na EN1 é pura mão-de-obra infantil, algo que deve ser combatido de forma enérgica.

Shalom

#ViveEaprenda

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