“O meu vizinho é um talentoso adestrador de gatos, eles cantam…” — Virgilio Dêngua

Virgilio-Dêngua-212x300 “O meu vizinho é um talentoso adestrador de gatos, eles cantam…” — Virgilio DênguaEstimado leitor, aposto que já ouvir falar da famosa frase “cada um tem a sua forma de viver”, pois não? Então, mercê desse pensamento, hoje venho contar-vos uma estória de empreendedorismo que acontece aqui na banda.

Dia sim, dia não, todas as noites, a partir das 21h00, o inspirador silêncio dá lugar a espectáculos de canto coral praticado por gatos do meu vizinho. É com todo o glamour e determinação que os felinos exibem enumeras actuações indesejadas, apresentações essas que parecem instruídas pelo proprietário e bem ensaiadas pelos gatos.

Diz a voz idosa que o cântico de animais daquela espécie representa algum sinal de má sorte ou algo triste por acontecer no meio familiar. Porém, aqui, na zona da Cavalaria, bairro de Carrupeia, em Nampula, a única coisa que some é o dinheiro. Aliás, esqueci-me de referenciar esse outro aspecto que a voz idosa disse: “É comum o uso de gatos para recolher dinheiro nas casas alheias para beneficiar aos proprietários desses animais. É um acto de magia negra, feitiçaria”.

Na verdade, para escrever o presente texto, inspirei-me numa nova composição apresentada na noite da segunda-feira (06/19/2017), sobre o telhado da casa onde tenho passado as noites. Apenas cansei-me de assistir e ouvir refrãos repetitivos, orquestra sem maestro e um espectáculo exibido às pressas.

A ser realidade que os gatos recolhem dinheiro quando cantam, sinto que estou a ser brutalmente burlado pelo seu proprietário, pois desejo eu que esses animais entoem canções populares de forma mais original, quem sabe. Chega de ouvir músicas de 2Pac e Bob Marley todos os dias. Desejo ouvir músicas como “Balada para as minhas filhas”, “Afrika”, “Pangira” – músicas que exigem um exercício vocal mais profissional.

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Cá entre nós, caro leitor, eu acho que estou a pagar acima do que devia pagar porque em algum momento acredito na teoria de que os gatos tendem a sugar dos outros, no caso eu. “Deve ser que eu estava sempre a sentar nas cadeiras VIPs, como é de moda cá no território moçambicano nos últimos tempos. Amanhã sentar-me-ei nas normais para ver se o “tako vaza menos”, pensei eu com os olhos a olhar para o céu.

No dia seguinte, logo cedo, vi o meu vizinho passar com uma camisa que parecia ser nova. “Acho que comprou com o meu dinheiro de ontem”, pensei eu. Mas reparei que o dinheiro que eu havia guardado apenas bastava para tomar chapa até ao mercado grossista do Waresta, só e só para saudar uns amigos e voltar.

Porém, fui ao Waresta. Voltei a pé, não tive dinheiro para pagar chapa. Não sei ao certo se haverá espectáculo la em casa esta noite. Mas enfim, “quem com tudo esbanja, com nada fica”.

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