Precisamos de um baptismo nacional — Venâncio Mondlane

Venancio-Mondlane-300x174 Precisamos de um baptismo nacional — Venâncio MondlanePor este meio, sob divino suporte e inspiração, venho contribuir para o debate e reflexão sobre a criminalidade violenta em Moçambique, com um enfoque particular sobre os assassinatos sem rosto que se tornaram quase um elemento identitário da Ordem e Segurança nacionais. Adicionalmente, propor, para Moçambique, um novo rumo, um novo paradigma para que saiamos das trevas para a luz do desenvolvimento. Eis uma nova utopia para Moçambique.

Caras Moçambicanas! Caros Moçambicanos!

Desde a chegada da armada de Vasco da Gama a Costa Moçambicana em Março de 1498, inicia-se um longo percurso de um verdadeiro calvário para os povos que habitavam o território que hoje se chama Moçambique. Iniciou-se com uma guerra de ocupação e dominação colonial estrangeira; um longo percurso de escravatura com deportações para São tome, Brazil e outros cantos do Mundo.

O Chibalo, ou trabalho forçado, durante o império colonial Português em Moçambique, teve consequências terrivelmente cruéis não só a nível físico, mas, e sobretudo, em algo que marcou profundamente o nosso País e África, na Educação, sendo considerado como uma das principais causas do subdesenvolvimento de África e de Moçambique no contexto actual do Mundo contemporâneo. Esta é uma das teses defendidas pelo Professor Miguel Jerónimo na sua obra “Livros brancos, almas negras”.

O Trabalho forçado só veio a ser abolido oficialmente no início da década 60, na mesma altura em que o Império começou, tardia e vagarosamente, a tentar remediar o atraso profundo no sector de educação dos povos de Moçambique. Isto é, passados cerca de 500 anos, depois de ter acostado em Moçambique a armada de Vasco da Gama é que começa o primeiro vento brando e frouxo de educação do nosso povo. Quer dizer durante quase meio século o Moçambicano era visto apenas como instrumento para exploração económica, um simples objecto, um acéfalo, desprovido de cérebro, muito próximo dos primatas do período das grutas, em fim, incapaz de ser sujeito da sua própria história.

Na década 30, com o Estado Novo, intensificou a opressão sobre os Moçambicanos e iniciam os movimentos de consciência nacionalista e que buscavam corrigir um erro de 500 anos de brutalização do Homem Moçambicano, da opressão, da racialização, descriminação, dos assassinatos indiscriminados e extra judiciais.

Alcançada a independência em 1975, não tardou que o País voltasse a resvalar numa guerra entre irmãos cujo saldo foram mais de 1 Milhão de Mortos e outras centenas de Milhares de deslocados e votados a miséria, ao atraso, ao subdesenvolvimento profundo e truculento.

Caras Moçambicanas! Caros Moçambicanos!

Hoje, passados mais de meio século de opressão, de colonislismo, de guerra civil, nos sofisticamos um pouco mais para uma instabilidade político-militar, esquadrões da morte, assassinatos encomendados, raptos, sequestros, intolerância política, perseguição e eliminação de adversários políticos, mas o substracto permanece intacto, a grande marca de lúcifer e dos seus agentes das trevas: matar, roubar e destruir.

Leia:  Por desvio de 900 mil meticais: Sete profissionais da saúde detidos em Nampula

E é a isto que nos tornamos especialistas em matar, em roubar e em destruir. Hoje um Parlamento de 250 deputados, na presença do Governo da sua nação, da comunidade internacional, dos parceiros, continuamos a reproduzir o triste espetáculo de acusações mútuas e diversificadas, de julgar e condenar de forma extra judicial, quando na verdade, as grandes questões nacionais como a Estratégia e Política para a potencialmente florescente indústria de gás e petróleo, enquanto nos acusamos, a Ministra do sector está em Tóquio, no Japão, a apresentar o Plano de Desenvolvimento da área 1 da Anadarko e o Plano de Reassentamento do nosso povo mas em território estrangeiro e sem mínima consulta e debate no Parlamento nacional, tal e qual as dividas ditas ocultas foram arquitectadas nos mercados financeiros internacionais sem que o mais prestigiado órgão de soberania nacional sequer tivesse conhecimento.

Compatriotas!

Enquanto se procuram culpados e discutimos as nossas diferenças primárias, a caravana passa e viramos um espaço e espetáculo circense dos nossos parceiros económicos e financeiros que olham para nós como se fossemos uma fonte de diversão semelhante as apostas de luta de galos.

Caros Moçambicanos!

É chegada a altura de se revirar a história desta nação, de sairmos da ignorância quase patológica dos nossos próprios problemas e desafios; da ignorância epilética sobre a definição das nossas prioridades para o futuro deste País. É chegada a hora de dizer basta ao legado de brutalidade intelectual a que fomos votados ao longo da história, é chegado o momento de um verdadeiro baptismo nacional, para que nasçamos de novo e nos tornemos verdadeiros sujeitos da nossa própria história e não como marionetes, manequins, robôs e espantalhos no concerto das nações.

É chegado o momento e a oportunidade histórica única, soberana e preciosa de deixarmos um legado de esperança aos nossos filhos, netos e a posteridade. É chegado o momento de uma reconciliação genuína, transversal e alargada dos nossos corações. Se o nosso quadro legal exige a declaração dos rendimentos lícitos, então irmãos criemos o quadro para declaração de rendimentos ilícitos também, criemos uma amnistia generalidade aos outros sectores como a área empresarial, económica, financeira e porque não, criminal também.

Elejamos um período de catarse, de Baptismo Nacional, em que os que mataram, confessem os seus crimes e que tenham as penas comutadas; os que desviaram fundos públicos, cometeram crimes económicos e financeiros, confessem seus crimes, devolvam ao Estado o património contaminado e amaldiçoado por esse pecado para que seja purificado e abençoado para ser aplicado no desenvolvimento e reconstrução do País.

Leia:  CMCQ oferece equipamento de trabalho aos árbitros

É chegada a hora de declararmos um período de transição para que os que estão nas trevas venham a luz. Elejamos um Procurador Nacional Independente e uma Comissão Nacional de Verdade, Reconciliação e Purificação, onde serão resgatados os criminosos e prevaricadores contra a Economia Nacional, contra as finanças públicas, contra a ordem e segurança nacionais. Todo Povo e Todo País precisa de uma Lei de Amnistia Nacional Geral. Precisa, o nosso País, de uma Agenda Nacional de Resgate Financeiro, Económico, Social e, sobretudo, de um resgate e restituição de valores nacionalistas, morais e éticos; uma Agenda em que a defesa do interesse Nacional se torne um Sacerdócio, uma Agenda supra partidária, supra sectorial, supra ideológica.

É imperioso para que de facto nos tornemos um País uno, indivisível e próspero, que os privilégios do “perdão parlamentar” aos Políticos que cometeram crimes contra a Soberania também sejam estendidos aos empresários que lesaram a Economia, as finanças públicas; aos titulares de órgãos públicos que cometeram crimes de lesa-pátria; aos funcionários públicos que cometeram desvio de fundos, para que se possam penitenciar, confessar e pedir perdão a Nação, devolvendo todo património e activos constituídos com estas actividades criminosas. Creio que o fundo resultante deste Plano Nacional Perdão poderia dispensar a humilhante mão estendida do Governo ao FMI, alavancar a nova Indústria têxtil, de castanha de cajú, do camarão e tantas outras que já foram fonte de orgulho nacional e das melhores referências a nível mundial.

Precisamos de um New deal – de um Acordo de Restauração Patriótica – em que os lesaram a economia, os fundos públicos, o património nacional, os que cometeram crimes contra a segurança, estejam no mesmo patamar. Precisamos de um período transitório, um período de suspensão do julgamento e da acusação, um período Baptismal, purificador, em que os fundos e património de Moçambicanos no exterior, seja voluntariamente repatriados e integrados num novo Fundo de Resgate e Restauração Nacional.

Só assim poderemos ascender a possibilidade de sair do buraco negro da ignorância, do debate frívolo e banal e iniciarmos uma nova era rumo a sermos os sujeitos da nossa própria história e a um novo Pacto Nacional de Paz e Estabilidade. Este é o pressuposto básico para que os recursos a nossa disposição sejam verdadeiramente uma bênção e nos tornemos nos próximos 20 anos a Suíça da África Austral.

 

LIVRE & INDEPENDENTE

© Jornal Txopela, 2017
Todos os direitos reservados
Fundado em 2014

REGISTO Nº 01/GABINFO-DEC/2016. © AFRO MEDIA COMPANY
Ir para a barra de ferramentas