Para se tornar campeão do mundo nos Mundiais de natação, no Qatar, Diogo Ribeiro não começou bem, foi ineficaz debaixo de água e precisou de nadar em caso de emergência – e era uma emergência tremenda, já que estava bastante atrasado numa prova muito curta como é a dos 50 metros mariposa.

“O início da prova não foi fulgurante, com o Diogo a reagir bem à partida, mas a não fazer um percurso subaquático de encher o olho. Depois, ligou o “motor”. Com uma recuperação tremenda, teve uma ponta final explosiva, um deslizamento final perfeito e levou o ouro”, escreveu-se por aqui. Quem confiou nesta avaliação ao desempenho de Diogo Ribeiro talvez queira ler o que se segue.

Alberto Silva – Albertinho, no mundo da natação – é treinador de Diogo Ribeiro e, no Qatar, atendeu a chamada ao PÚBLICO para confirmar ou desmentir esta análise. E se Albertinho a desmente, resta-nos assumir.

“A área técnica aqui em Doha é ao nível da piscina e não dá para ter noção exacta do que se passou. Mas pareceu-me que ele fez uma boa saída e mais do que no percurso subaquático, como diz, acho que o problema foi no saia – que é a saída da água depois do submerso. Ele nesse momento saiu mais para cima do que para a frente. Pareceu-me que isso não funcionou tão bem como nos treinos”, analisou.

E detalhou: “Mas depois o nado dele é dos melhores do mundo e eu já lhe tinha dito isso. Eu disse-lhe “vai no automático e, se o saia não funcionar, confia no teu nado”. Diogo Ribeiro confiou e foi uma autêntica locomotiva, com aceleração, potência e deslizamento final perfeitos.

“Não vai dormir bem”

Albertinho assume ao PÚBLICO que Diogo Ribeiro estava ansioso antes da prova, mas que não foi nada fora do normal. “Não há ninguém que não tenha ansiedade em momentos destes. É um momento muito tenso. Mas ele lida muito bem com a ansiedade”.

Antes dos Mundiais, o atleta tinha dito que o objectivo era melhorar os seus tempos e que, se isso acontecesse, os resultados viriam como extensão disso. Curiosamente, saiu tudo ao contrário: não bateu os seus recordes, mas teve medalha – e de ouro.

Questionado sobre se Diogo estava confiante para um ouro, Albertinho foi claro: “Sim, estava confiante. Trabalhou para chegar lá e disputar medalhas. Há muitos atletas talentosos e com experiência, mas ele estava confiante e acreditava”.

E agora? Esta pergunta tem dois prismas. Sobre “e agora, nos Mundiais?”, Albertinho deu um contexto curioso, dizendo que o calendário do Mundial beneficia o nadador português.

“Eu e o Diogo gostámos da sequência de provas. Foi favorável. Porque ele nadou esta prova, que não é olímpica, e pôde treinar as emoções, ganhar confiança e ter a recompensa. Agora, vai ter uma noite de sono agitada e não vai dormir bem, mas amanhã, como não tem prova, pode descansar. Calhou bem”, explica.

“Só depois começa a segunda fase, que é das distâncias olímpicas, em que ele pode começar a pensar nos Jogos. Tem três provas individuais e chegar às finais vai ser boa experiência pré-olímpica. Na estafeta vai no meio, na mariposa, e pode contagiar os outros com a confiança que ganhou e ajudar Portugal”.

Sobre e “e agora, para a natação?”, o treinador brasileiro fala de “orgulho e visibilidade fora do lugar-comum que é o futebol”.

“É incrível o que representa para Portugal e para mim. Estou há três anos em Portugal e não consigo ter noção exacta da dimensão, mas acredito que é um marco para incentivar a natação e projectos que saiam do lugar-comum”.

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