Diz que é o maior espectáculo do mundo. Ainda não compreendo totalmente o futebol americano, mas o FOMO (medo de perder) levou-me neste domingo a ver a SuperBowl, a sempre antecipada final do campeonato.

Tudo espremido, são 60 minutos de jogo divididos em quatro períodos de 15 minutos. Para milhões de espectadores, é o que menos interessa. É a fina fatia de queijo num X-Burger de doze camadas – dá-lhe o nome, mas quase que podia lá não estar.

Ali, o jogo é qualquer coisa que vem no meio do verdadeiro espectáculo televisivo: o espalhafato no estádio; os anúncios feitos só para aquela ocasião, a cerca de 14 milhões de dólares por minuto de emissão; as celebridades nas bancadas, mais reconhecíveis do que a maior parte dos atletas em campo; o concerto do intervalo, a consagração de qualquer carreira pop nos Estados Unidos. Vai ao grelhador com molho picanteserve com batatas fritas e acompanha com muita cerveja.

Este ano, o concerto calhou a Usher e foi cirurgicamente coreografado para saciar a nostalgia millennial, com Ludacris e Alicia Keys em palco.

Os anúncios são a habitual e demencial mixórdia de celebridades, referências culturais intergeracionais e orçamentos milionários de marketing. Uma banda de meninos com Ben Affleck, Matt Damon e Tom Brady a fazer uma audição frente a Jennifer Lopez? É um anúncio à Dunkin’ Donuts. Beyoncé numa nave espacial a tentar “partir a Internet” e a antecipar o seu próximo álbum? É um anúncio à operadora de telecomunicações Verizon. Um lagarto que fala com extraterrestres e tem um conflito com um homem pré-histórico descongelado de um glaciar? Parecendo que não, é um anúncio de uma seguradora.

Nas bancadas, Taylor Swift, que forma com o jogador Travis Kelce o casal mais popular do momento nos Estados Unidos, ao ponto de Donald Trump e os republicanos estarem em pânico com a sua influência mediática e o seu possível apoio aos democratas, ocupa metade dos planos de corte da transmissão.

E houve o tal jogo pelo meio, entre os San Francisco 49ers, que não ganham a final desde 1994, e os Kansas City Chiefs, a grande história do desporto americano dos últimos tempos, que ambicionam ser os novos Patriots da era Tom Brady, a nova dinastia hegemónica da modalidade.

A primeira metade do encontro foi um imenso aborrecimento. A segunda, em que os Chiefs orquestraram uma reviravolta e selaram o triunfo a três segundos do final do prolongamento, foi puro entretenimento. Tenho pena, mas foi giro. Lá repetirei o ritual no próximo ano.

A saúde de Biden e do jornalismo

O procurador especial que investigou a descoberta de documentos confidenciais na residência privada de Joe Biden concluiu que não havia ali matéria para acusação criminal, ao contrário do que sucedeu com Donald Trump, cujo caso é considerado mais grave. Essa foi uma boa notícia para o Presidente democrata, que concorre à reeleição em Novembro.

O problema é que dentro da boa notícia, embrulhadinha, vinha outra má: o relatório assinado por Robert K. Hur inclui uma avaliação arrasadora do estado mental de Biden, referindo a sua “memória fraca” e dando como exemplos as dificuldades que o Presidente terá tido para se recordar dos anos em que foi vice-presidente e da data da morte do filho Beau.

Biden desmentiu furiosamente a caracterização feita pelo procurador especial, como seria de esperar. Menos normal é a revolta recorrente, no sector democrata, perante a cobertura noticiosa da questão da saúde e da idade do Presidente.

Neste fim-de-semana, confrontou-se sobretudo a cobertura do relatório com uma alegada ausência de notícias sobre as mais recentes declarações de Trump, que sugeriu pedir à Rússia para invadir países da NATO que não gastem o suficiente em defesa.

Mas nem esse boicote foi real (as declarações foram amplamente noticiadas; a ausência em algumas edições impressas é explicada com a hora a que as edições vão para a gráfica), nem o tema das faculdades mentais de Biden pode ser um assunto tabu.

Primeiro, porque o jornalismo não se pode autocensurar em benefício de uma agenda política, seja ela qual for. Segundo, e precisamente porque Donald Trump não é um candidato “normal” e porque estão em causa questões de enorme magnitude com o seu possível regresso à Casa Branca, é ainda mais pertinente questionar se Biden está em condições ideais de ser o seu adversário nas presidenciais de Novembro.

O site que nos vinha salvar

Ainda os meios de comunicação. Escrevi há algumas semanas sobre as questões estruturais que explicam, também nos Estados Unidos, a crise generalizada da imprensa e do seu modelo de negócio. Mas a conjuntura tem costas largas e não explica casos de má gestão gritante como o do The Messenger, um site norte-americano de notícias, com financiamento milionário e uma redacção com centenas de jornalistas ‘roubados’ a jornais de referência, que faliu e fechou em Janeiro.

Da fundação ao colapso, em apenas oito meses, o projecto jornalístico conseguiu queimar 50 milhões de dólares e morrer sem glória. O que falhou? Tentou-se aplicar em 2023 uma receita de 2013: conteúdos gratuitos produzidos em série, quase sempre “picados” da concorrência e distribuídos através das redes sociais. A publicidade iria pagar a coisa, pensou-se.

Mas 2023 não era mesmo 2013. Há muito que as redes sociais deixaram de ser a vaca leiteira dos media – apenas uma ínfima fracção dos seguidores no Facebook, por exemplo, vê hoje os links ali partilhados.

A publicidade online está hoje nas mãos dessas mesmas redes e do Google, que um dia também fechará a torneira da distribuição. A cobertura generalista, centrista-mas-a-piscar-o-olho-à-direita, que o The Messenger oferecia também era uma proposta editorial difícil de vender: quem é que precisava da enésima versão do mesmo produto?

O anacrónico The Messenger era uma impossibilidade nos dias de hoje, e muitos jornalistas e observadores do meio sabiam-no. Joshua Benton, do Nieman Lab, é um deles, e assina aqui um dos vários obituários que já saíram entretanto. A leitura vale a pena para quem se interessa pelo assunto.

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