Na primeira vez que Luís Montenegro esteve frente-a-frente com André Ventura, esta segunda-feira, na RTP1, o líder da Aliança Democrática (AD) aproveitou para dar outros contornos à rejeição de um acordo com o Chega: Assumiu que está a “lutar para a maioria absoluta”, o que dispensaria o partido que tenta assaltar o espaço político do centro-direita.

Num debate vivo em que os dois protagonistas se interromperam algumas vezes, Montenegro mostrou estar apostado em colar André Ventura a uma “linguagem imprópria”, em lembrar o seu passado recente (até 2018) de militância social-democrata, de associar o Chega a propostas “irrealistas” e que, no seu global, têm um impacto financeiro de 25.525 milhões de euros, ou seja, uma “irresponsabilidade”.

Acusando Ventura de “tentar instrumentalizar as forças de segurança no discurso”, Montenegro apelidou de “erradas” as propostas do Chega de permitir que os agentes da PSP e GNR tenham filiação partidária e direito à greve. “É a tentativa de colocar os partidos nas esquadras e quartéis”, disse, questionando: “Num dia de greve quem é que garante a segurança?”.

Ventura, por seu turno, acusou o líder da AD de “não se comprometer com nada” e tentou empurrá-lo para o “colo do PS” quando Montenegro se recusou a explicar o que fará se os socialistas vencerem as legislativas com maioria relativa. “Não há cenário de derrota neste momento”, argumentou o social-democrata.

No combate à corrupção, Ventura defendeu que consegue recuperar o custo do fenómeno, que aponta ser de 20 mil milhões de euros, através da “aceleração de mecanismos de confisco e de apreensão de bens” aos condenados. “Achar que é o confisco que vai resolver o problema da corrupção é viver no outro mundo”, contrapôs Montenegro, que defendeu a criminalização do enriquecimento ilícito e a regulamentação pressão.

Relativamente às pensões, o líder da AD acusou o Chega de irrealismo quando propõe aumentos a pensionistas suportados pelo Estado mesmo quando têm outros rendimentos. “Não é só mandar para o ar. É preciso responsabilidade”, atirou Montenegro. Ventura argumentou que a equiparação das pensões mais baixas ao salário mínimo representa 7% do PIB, o que é “fazível”.

O líder do Chega apontou o dedo a Luís Montenegro por ter sido responsável pelo corte de pensões e que agora está a tentar “reconciliar-se com os idosos”. “Foi o PS que cortou”, contrapôs, gracejando: “Acho piada a esta vitimização. Isso era na altura em que batia palmas ao PSD”.

Aliás, Montenegro já tinha recordado que Ventura “andava com a bandeirinha” a defender o PSD e agora acusa o seu antigo partido e o PS de “espezinhar” as forças de segurança. O agora líder da AD recordou que era líder parlamentar durante o governo PSD/CDS e que Ventura até era seu apoiante interno: “Achava que eu devia ser líder do partido. Ai não se lembra?”. Ventura, que foi conselheiro nacional do PSD e candidato autárquico a Loures em 2017, não se lembrava.

“Grau zero dá política”

O debate começou com Montenegro a condenar a linguagem usada por Ventura. “Ainda ontem o PSD era prostituta política. É o grau zero da política, não compactuo com essa linguagem”, afirmou, o que não impediu Ventura de, mais tarde, lhe chamar o “idiota útil” ao considerar que se alia ao PS para afastar o Chega do poder.

Na recta final do duelo, o líder da AD foi questionado sobre quem é o adversário – o PS ou o Chega. Montenegro identificou claramente o PS como “alternativa de Governo”, aproveitando para apelar ao voto útil na AD. Já Ventura, confrontado com a mesma questão, disparou em várias direcções: “O meu adversário é o PS mas os dois partidos são adversários do sistema”.




PÚBLICO

Fuente