A produção e o consumo de papel higiénico têm um enorme impacto ecológico – e, por isso, há consumidores preocupados com a crise climática que deixaram de usar esse produto, defendendo um regresso ao bidé e às toalhas de algodão. Preferir a lavagem à limpeza com papel é também uma opção considerada mais higiénica.

O engenheiro ambiental Tiago Matos, por exemplo, já não usa papel higiénico há cerca de quatro anos. Tendo consciência de que “são necessários 140 litros de água na produção de um só rolo de papel higiénico”, percebeu que estava na hora de mudar de hábitos de higiene íntima.

Tiago Matos experimentou o bidé portátil – uma bisnaga que funciona como um pequenino chuveiro – e diz ter ficado “completamente rendido”. Com apenas 300 mililitros, garante conseguir substituir o papel higiénico e obter um melhor resultado.

É mais prático, barato e higiénico”, resume o engenheiro ambiental, que é também autor da página Tribo Verde na rede social Instagram. Hoje, os rolos que tem em casa servem apenas para as visitas. E são sempre aqueles acastanhados, feitos com papel reciclado, cuja produção consome menos recursos hídricos.


A criadora digital Catarina Barreiros, que encoraja hábitos sustentáveis e sem desperdício em diferentes plataformastambém só compra papel higiénico para as visitas. Para a própria higiene íntima, só usa o bidé, seja o de louça ou portátil.

Na loja DoZero, que Catarina fundou em 2018 – e que fechou no ano passado –, chegou a vender mais de mil unidades do bidé portátil. Catarina acredita que, aos poucos, estes hábitos estão a ser normalizados na sociedade portuguesa. “Muitas pessoas conseguem entender a vantagem também em termos de higiene ao utilizar bidé”, explicou ao PÚBLICO.

“O consumo de 2,5 rolos de papel higiénico por semana por pessoa em Portugal significa um consumo de água de 350 litros (e aqui estamos só a contar com a produção do papel, nem estamos a pensar no autoclismo, que teremos sempre de continuar a descarregar). Ora, um bidé implica a utilização de cerca de 250 mililitros de água por utilização”, escreveu Catarina Barreiros no blogue DoZero há quase cinco anos, quando começou a tentar convencer mais pessoas a utilizarem o bidé.

O bidé é mesmo “mais higiénico”?

Um artigo científico, publicado no Jornal de Saúde da Água em 2022, mostrava que as mãos das pessoas que usam bidés têm muito menos microrganismos do que aquelas que recorrem ao papel higiénico. Os investigadores pediram a 32 estudantes de enfermagem no Japão que usassem luvas hospitalares novas quando fossem à casa de banho.



O consumidor português utiliza em média cerca de 1035 quilómetros de papel higiénico ao longo da vida, segundo os cálculos de uma empresa britânica
Anna Shvets/Pexels

Os participantes usavam o bidé e o papel higiénico para remover os resíduos de fezes, podendo gastar a água que quisessem e recorrer a rolos com quatro camadas. Depois da lavagem ou limpeza com papel, os cientistas analisaram as luvas usadas pelos voluntários para perceber que colónias bacterianas se desenvolviam ali.

A conclusão do estudo – que conta com uma amostra reduzida, logo mais estudos são necessários para corroborar os resultados – indica que as pessoas que se limparam com papel higiénico apresentavam, em média, quase 40 mil bactérias diferentes à superfície das luvas. Já o número de microrganismos presentes nos utilizadores do bidé podia ser quase dez vezes menor.

Poluição de águas residuais

Além do consumo hídrico, o papel higiénico também contribui para a poluição das águas residuais. O produto constitui um dos principais poluentes insolúveis que chegam às estações de tratamento de águas residuais. As fibras de papel higiénico que vão parar às canalizações contribuem para uma gigantesca produção de lamas de esgoto que, para serem tratadas, consomem muita energia e verba pública.

Um estudo publicado em 2023, na revista científica Cartas de Ciência e Tecnologia Ambientalmostra ainda como o o papel higiénico constitui “uma fonte inesperada” de substâncias perfluoroalquiladas​ (PFAS, na sigla em inglês) nos esgotos.

As PFAS são compostos químicos sintéticos (ou seja, não ocorrem naturalmente no ambiente) que têm sido, desde o fim dos anos 1940, amplamente utilizados pela indústria devido às suas propriedades repelentes ou antiaderentes. São conhecidas como substâncias químicas “eternas” porque não se degradarem facilmente, acumulando-se na água, nos solos e nos próprios tecidos vivos. Uma campanha divulgada em Janeiro mostrava que vários líderes europeus apresentavam diferentes tipos de PFAS no sangue.

“Alguns fabricantes de papel adicionam PFAS ao converter madeira em celulose, que pode ficar para trás e contaminar o produto de papel final. Além disso, o papel higiénico reciclado pode ser feito com fibras provenientes de materiais que contenham PFAS”, refere uma nota de imprensa da Sociedade Norte-Americana de Química.

Deitar florestas na sanita

Do abate de árvores à poluição das águas residuaispassando pelos recursos usados na elaboração e branqueamento da pasta de celulose, são muitos os caminhos que associam a indústria do papel higiénico à degradação ambiental.

O Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC, na sigla em inglês), uma organização ambientalista criada há mais de 50 anos nos Estados Unidos, tem publicado sucessivos estudos indicando que as principais marcas de papel higiénico no país recorrem à madeira selvagem de florestas boreais como matéria-prima.

A quinta edição do relatório O problema com o tecido (que, inglês, significa algo como “o problema do papel”) estima que 80% do papel higiénico dos EUA advém de florestas virgens. Por outras palavras, este produto de higiene está associado à destruição de ecossistemas que absorvem grandes quantidades de dióxido de carbono – e que, portanto, são importantes aliados no combate à crise climática.

“As maiores e mais poderosas empresas de papel dos EUA são aquelas que permanecem entrincheiradas num modelo destrutivo de gasoduto ‘da árvore à sanita’, que tem impactos generalizados na floresta boreal do Canadá e nos seus habitantes, espécies ameaçadas e vastas reservas de carbono”, alerta Ashley Jordan, especialista da NRDC para as florestas boreais, num artigo da organização ambientalista.

Principais países que não consomem papel

Portugal é um dos países que mais consomem este produto de higiene. O consumidor nacional utiliza em média cerca de 1035 quilómetros de papel higiénico ao longo da vida – “mais do que qualquer outra nacionalidade”, refere uma compilação de dados elaborada pela empresa britânica Suprimentos QSque comercializa louças e acessórios para casas de banho. O valor médio atribuído a Portugal supera até o dos próprios Estados Unidos (1018 quilómetros).

O mesmo documento indica, por exemplo, que os espanhóis usam 622 quilómetros de papel higiénico ao longo da vida, ao passo em que os brasileiros se ficam pelos 265 quilómetros. Os que consomem menos no planeta seriam os nigerianos: o consumo médio não chega a cinco quilómetros por pessoa, do nascimento até à morte.

Estes cálculos, que recorrem a fontes como Político e Worldometer, sugerem que o consumo deste produto de higiene depende não só de aspectos socioeconómicos, mas também culturais. Por outras palavras, o poder aquisitivo influencia o consumo de cada nação, mas os hábitos locais de higiene íntima também têm um peso importante na equação de cada país.

Veja-se o caso da Holanda (348 quilómetros), por exemplo, um Estado-membro da União Europeia cujo consumo de papel higiénico corresponde a um terço da média portuguesa. Ou da Áustria (413 quilómetros), onde a média por cidadão, ao longo de uma vida, representa menos de metade do valor português.

A importância dada ao papel higiénico é tanta que foi um dos produtos mais açambarcados e que desapareceram das prateleiras nas primeiras semanas dos confinamentos da pandemia de covid-19. “Sempre tivemos a cultura do bidé na Europa, mas o papel higiénico passou a ser visto como algo mais prático, por ser descartável. Precisamos repensar estes hábitos”, encoraja Tiago Matos.





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