São invisíveis as coisas mais bonitas que fazemos. Não há nada de novo em concluir isto, mas termos essa certeza implica já termos feito muitas vezes o caminho dessa invisibilidade. Esse caminho, sem pregões nem declarações, é que está certo, mas o mundo não está propriamente moldado para os que agem sem querer reconhecimento. Queremos a câmara virada para nós. Às vezes até um dedo apontado é melhor do que nada.

Tenho vindo a conhecer Luísa, uma mulher que estuda a fundo a Natureza e a partir da qual prossegue os seus estudos e investigações. Luísa já esteve isolada do mundo, longe do mundo, como está tantas vezes perto de nós, mas afastada de todos. No meio da natureza desenha, acompanha os insectos, segue-lhes os movimentos. Os animais podiam dar-nos as lições certas para vivermos de forma adequada no planeta, mas, em vez disso, enxotamo-los. Fazemos isso com muitas coisas que nos colocariam de novo no sítio certo. Fugimos de qualquer possibilidade de introspecção ou assimilação. É mais fácil fugir do que pensar.

Luísa fez uma investigação notável sobre as mulheres que noutros séculos foram conhecer a natureza sem que o mundo lhes reconhecesse a autoria do trabalho. Dizia-me ela lá em casa, numa tarde deste Inverno: “… e meteu-se num barco cheio de escravos com a filha de 13 anos, para ir para a selva do Suriname desenhar répteis exóticos”. Luísa falava de Maria Sybilla, entomóloga e ilustradora como ela, mas que viveu no século 17. Esta mulher descobriu e aprofundou as metamorfoses dos insectos. A investigação feita por Luísa sobre essas mulheres, que desafiaram o mundo dos homens, poderá ser vista em Maio na Universidade onde Churchill andou. Luísa movimenta-se num mundo que quer tornar visíveis, sem alarido, as coisas significativas. Como não pensar no trabalho valioso que faz?

Hoje mesmo, conversando com Manuela, e reafirmando a minha necessidade de me dizer feminista, Manuela lembrava-me: “parimos a Humanidade. Como é que alguém pode subjugar um super poder desses?!”. Manuela fez com que agarrasse o dia com outra vontade. “Os homens têm muita sorte de só querermos igualdade e não vingança” – rematava certeira.

Daqui a uns dias entraremos no cortejo infinito da data que nos lembra as desigualdades em que ainda vivemos. O Dia da Mulher traz números, retratos vários de países que são notícia também porque ali as mulheres não conhecem qualquer direito. Não podem sequer ter um rosto. Haverá mulheres a lembrar tudo o que já fizeram nesse dia em particular (um igual aos outros) e homens que brincam com o facto, lembrando que também eles já fazem muitas coisas. Já, mas insuficientes. Ainda estão longe de parir a Humanidade.

Que chute, Manuela!

As coisas mais bonitas que fazemos são invisíveis. As mulheres sabem muito bem o que isto quer dizer. Estamos no século 21 a tentar que nos ouçam, num debate que tentamos moderar. Dois homens falam por cima da voz de uma mulher (e de tantas outras) sem qualquer hesitação. A voz das mulheres está longe de se ouvir.

Todas temos que trabalhar o triplo para estar aonde conseguimos chegar, mas ainda facilmente nos podem ver como vadias e não galantes. O mérito nem entra nesta equação. O julgamento continua a dividir-se muito claramente entre homens e mulheres.

Esta crónica poderia estar cheia de nomes de mulheres que trabalham de forma invisível dando ordem e equilíbrio ao mundo. É lhes dedicada. Como será sempre dedicada à minha mãe e às mães que sofreram em silêncio para que as filhas pudessem ir mais longe do que elas. Aceitaram a dor desse silêncio para que nele coubessem as palavras que nos salvaram. Estamos a fazer esse caminho. Estamos a furar o silêncio e já não recuamos. Há mulheres como a Luísa ou a Manuela que dão sentido aos nossos dias. Aos dias todos. Dia 8 será apenas mais um.

Igualdade e não vingança.

O coração ainda bate.

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