Até 25 de Abril de 2024, a BLITZ publica uma lista de 50 canções publicadas após a Revolução dos Cravos, no ambiente de liberdade que dela adveio. De intervenção política, social ou ambiental, com a palavra aguçada e mira apurada, de mera observação, crítica ou protesto vincado, do punk ao hip-hop, do rock à música popular portuguesa. Os textos são assinados por Rui Miguel Abreu, colaborador de longa data da BLITZ. Todos os dias, esta lista receberá uma nova canção.

28. ‘Olho da Rua’, dos Três Tristes Tigres (1996)

Anos 90, dores de há muito. Ao segundo álbum, o muito celebrado “Guia Espiritual”, a química natural que se parecia ter estabelecido entre a escrita de Regina Guimarães, a voz de Ana Deus (ex-Ban) e a guitarra de Alexandre Soares (ex-GNR) parecia dar entusiasmantes resultados, transformando-se em música que espicaçava em igual medida a alma e a imaginação de quem lhe concedia a atenção devida. Nesta música, encaixada entre ‘Kainever’ e ‘Luna Motel’, sobre a cinemática guitarra de Soares, Ana Deus guiava-nos pelo lado mais frio da rua para nos mostrar alguém que confessava “enquanto der, ficarei aqui”: “Rua do azar/ Sorte para ti/ Enquanto houver um filho da mãe/ Contas de papel/ Vale quanto tem.” Polaroides de baixa definição de uma realidade cruel que nas cidades obrigavam a colar os olhos no chão, numa tentativa de anestesia que nunca resolveu nada. Fazer desse olhar canção magoava, mas era preciso.

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