– Caros ‘Saarbrückanos’, hoje há jogo de campeonato!
– OK, mas calma… somos apenas o Saarbrücken.

– Caros ‘Saarbrückanos’, hoje há jogo de Taça!
– Ai é? Hoje verão os Müllers que temos em nós!

O que se tem passado em Saarbrücken nesta temporada de futebol não anda longe da caricatura aqui traçada, depois de eliminarem da Taça da Alemanha três equipas da Bundesliga: o Eintracht Frankfurt, o Bayern Munique e o Borussia Monchengladbach.

Quando joga para a 3. Liga, terceira divisão da Alemanha, o Saarbrücken é um mero clube de meio da tabela – mais perto da descida ao quarto escalão do que da subida ao segundo. Mas quando joga para a Taça da Alemanha algo se apodera dos corpos daqueles rapazes e torna-se o pokalschreck [o terror da Taça] – e convenhamos que o epíteto, apesar de auto-atribuído no clube, é bastante justo.

Nesta terça-feira, a equipa do terceiro escalão deixou de fazer das quimeras realidade. Com a derrota frente ao Kaiserslautern (2-0), na meia-final da Taça, não haverá Saarbrücken na final, mas já há, até aqui, uma história e tanto.

Agora, frente ao Kaiserslauterna tarefa até era teoricamente mais acessível. Se bateram o Frankfurt, o Bayern e o “Gladbach”, equipas de primeira água na divisão principal, não bateriam o Kaiserslauternformação em zona de descida no segundo escalão? Em tese, sim. Na prática, nem por isso.


Antes do jogo, em Saarbrücken, falava-se do Jogo do século [o jogo do século] frente a uma equipa vizinha, que vive a cerca de 60 quilómetros. E o treinador do Kaiserslautern conseguiu dizer que o Saarbrücken era “obviamente o favorito para o jogo” – e, segundo os relatos, conseguiu fazê-lo sem se rir. Já alguém terá dito isto de uma equipa de escalões secundários em toda a história das antevisões a meias-finais de taças domésticas? Provavelmente, não.

Um clube especial

Como é que esta aventura na Taça aconteceu? A resposta tem três dimensões: a humana, a logística e a futebolística. No prisma humano há algo especial a envolver este clube, que ainda há quatro anos chegou à meia-final da Taça – na altura, apesar dos sorteios mais favoráveis, também já tinha sido uma surpresa.

Descontando Bremen, de estatuto especial, o Saarbrücken pertence ao menos populado estado germânico – e até já pertenceu aos franceses, que depois da II Guerra Mundial tentaram, sem sucesso, evitar a reintegração do território na nova Alemanha.

Futebolisticamente, já lá vão mais de 30 anos desde que jogou na Bundesliga, estando longe de ser um “gigante adormecido”. E não tem a “mão amiga” de uma grande empresa ou sequer de uma personalidade renomada e abastada.


Por tudo isto, cria-se uma onda em torno de um clube muito local. “Quando as pessoas chegam ao estádio sentem que não é um jogo normal de campeonato. Na Taça, o estádio já está cheio uma hora e meia antes do jogo. No aquecimento, o ambiente é totalmente diferente. E durante o jogo os adeptos celebram cada duelo ganho”, explicou ao O Atlético o treinador, Rudiger Ziehl.

No Sudoeste alemão, na região de Sarre, bem “entalado” na fronteira com França, há um pequeno estádio chamado Ludwigparkstadion. É lá que tudo tem acontecido, até porque na Taça da Alemanha o clube de divisão mais abaixo joga sempre em casa.

Por ali, acende-se um inferno azul e preto e não se trata de mera emoção. E aqui chegamos ao segundo domínio: o logístico.

Jogar no Ludwigparkstadion é, frequentemente, ir colocar as botas num relvado que, para muitos, não teria sequer esse nome. O estádio tem crónicos problemas de drenagem do subsolo e o relvado torna-se um autêntico batatal sempre que chove – também por isso a eliminatória frente ao Monchengladbach teve de ser reagendada.

Equipa defensiva

A talhe de foice, este percurso do Saarbrücken sugere uma questão para a dimensão portuguesa. Para um pequeno clube, compensa mais receber um “grande” em estádio alheio, podendo ter mais uns euros de receita, ou fazê-lo no seu “pequeno batatal”, com o “quentinho” da aldeia a criar desconforto, e poder tornar-se um Saarbrücken?

Voltando aos alemães, estamos a falar de um clube que usa o seu campo a seu favor. E aqui chegamos ao terceiro prisma deste fenómeno: o futebolístico.

Num 5x4x1 de profunda prevalência defensiva, o Saarbrücken é uma equipa que defende como pode e ataca quando – e se – possível. Na 3. Liga, apesar do 11.º lugar, é a segunda melhor defesa do campeonato, um dado que atesta a força defensiva de uma equipa cuja ordem é a do empate: tem mais empates do que vitórias ou derrotas. Curiosamente, desta vez até atacou bastante, mesmo com o jogo em 0-0. Por coincidência ou não, perdeu.

Desta vez, o batatal não estava assim tão batatal, a postura defensiva não foi assim tão defensiva e o pokalschreck nas bancadas não foi suficiente. Mas o que se passou até aqui já ninguém lhes tira.



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