As síndromes pós-infeciosas são reconhecidas desde os anos 30 do passado século e podem relacionar-se com infeções virais ou bacterianas.

Na maioria dos doentes, a seguir a uma infeção aguda sucede um período de recuperação, com duração variável, que conduz ao seu restabelecimento completo. Mas numa pequena percentagem, à recuperação dos sintomas da infeção aguda sobrevem uma nova doença que é a síndrome pós-infeciosa.

A ocorrência de fadiga prolongada após uma aparente virose está largamente descrita. Embora alguns autores acreditem que se trata, sobretudo, de uma situação de origem psicológica, existem evidências laboratoriais que a conectam com várias infeções virais, nomeadamente a mononucleose infeciosa e a vulgar gripe.

Estes quadros clínicos – que incluem a fadiga e outros sintomas, sobretudo músculo-esqueléticos e neurológicos – são denominados Síndrome de Fadiga Crónica (SFC).

A SFC, ou encefalopatia miálgica (EM), tem causa incerta, pode ser sequela de algumas infeções, tem caráter crónico (meses ou anos de evolução), pode incluir muitos e diferentes sintomas e não tem qualquer teste diagnóstico específico. Além da fadiga, mais ou menos debilitante, associa sono não reparador, alterações cognitivas, mal-estar e/ouexacerbação dos sintomas após o exercício. Outras queixas são a fraqueza muscular, acompanhada ou não de mialgias, sobretudo dos membros inferiores, cefaleias, visão turva e formigueiros difusos. A febrícula (aumento das temperaturas corporais entre 37,3º e 37,8ºC) e a garganta inflamada, não sendo típicas, são frequentes.

Evolui de forma díspar, de doente para doente, com variações significativas da gravidade e pode causar uma importante redução da capacidade funcional e da qualidade de vida. O seu diagnóstico é clínico e, embora não exista cura conhecida, há estratégias para que os doentes possam viver bem.

A fadiga e os sintomas de perturbação cognitiva – “brain fog” (“nevoeiro” cerebral) – foram e são reportados desde as Pandemias mais antigas registadas (século XIX) e, agora também, na recentemente, descrita Covid Longa, caraterizada por um conjunto de sintomas persistentes que interferem com a capacidade funcional do doente, para o trabalho e mesmo para as atividades da vida diária, na ausência de lesão de órgão(s) principal(ais).

A Covid Longa apresenta-se, assim, amplamente semelhante à SFC/EM. Esta coincidência levou muitos médicos e investigadores a procurarem as suas origens biológicas, que também serão similares.

Em apoio a grupos de doentes, organizámos em Lisboa, entre 3 e 4 de abril, uma reunião científica sobre o tema (1ª Conferência Internacional – Avanços Clínicos e Científicos em EM/SFC/Long-Covid). Durante dois dias, um notável conjunto de médicos, clínicos e cientistas, norte-americanos e europeus, com longa experiência sobre estes temas, ajudar-nos-ão a melhor conhecer e compreender estas doenças, o seu diagnóstico, tratamento e prognóstico, assim como organizar os recursos para a sua gestão clínica.

A investigação fisiopatológica acerca destas condições clínicas originará maior e melhor conhecimento, quer sobre as suas causas quer sobre novos tratamentos que possam reduzir a morbilidade e a incapacidade dos doentes. Clínicos, investigadores e doentes estamos juntos neste caminho.


Jaime C. Branco, ULSLO e NOVA Medical School

António Vaz Carneiro, Instituto de Saúde Baseado na Evidência, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Joan Serra Hoffman, Aliança de Milhões Desaparecidos

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