A segunda edição do Festival de Avignon dirigido por Tiago Rodrigues, o único estrangeiro na sua liderança desde a sua criação há 78 anos, será dedicada à ideia de transmissão. Depois de ter imaginado o festival como um “café europeu, muito luminoso, lugar de debate, de encontro democrático e de discussão à volta da criação artística, muito inspirado por aquilo que determinou a sua fundação”, conceito que lhe permitiu convencer os decisores políticos franceses a escolhê-lo para aquele lugar, o encenador português quer concentrar-se de novo na ideia de troca. “O fenómeno da civilização passa pela ideia de transmissão, que vejo como oposição à ideia de arquivo. A transmissão é o que estamos a fazer nesta conversa, é o que se passa numa sala de aula. Tem uma dimensão de imperfeição, mas também tem um lado de invenção, e é essa ideia que vai atravessar esta edição do festival”.

Dedicado à língua espanhola, depois de a primeira edição ter sido consagrada à língua inglesa, o Festival de Avignon poderá ter menos surpresas para os portugueses do que para os franceses, à semelhança do que aconteceu no ano passado. Tim Crouch, por exemplo, apresentado pela primeira vez, em França, no ano passado – e parte integrante da candidatura de Tiago Rodrigues à direção do festival – foi presença assídua em Portugal, nos últimos 20 anos, nomeadamente na Culturgest, onde Tiago Rodrigues o viu pela primeira vez. “Isso é uma das vantagens de ser um artista estrangeiro que chega a França. Carrego comigo a minha bagagem, a minha história portuguesa. Tenho algumas cartas, alguns ases guardados no bolso que aqui conhecemos,” conclui o ex-director do Teatro Nacional D. Maria II. Este ano a fórmula repete-se. Alguns dos nomes em que Tiago Rodrigues aposta são bem conhecidos das audiências portuguesas. Menos das francesas. É o caso de Angélica Liddell, Boris Charmatz, Lola Arias ou La Ribot.

Angélica Liddell, “a única mulher que marcou presença em Avignon nas três últimas direcções”, sublinha Tiago Rodrigues, tem sido presença habitual no Festival Citemor, de Montemor-o-Velho, no qual costuma fazer residências criativas, como aconteceu na última edição. A dramaturga e encenadora espanhola chegou ao Baixo Mondego, em 2007, para apresentar três performances, regressou em 2009, em 2013, em 2018 e 2023, e já apresentou algumas das suas obras de maior dimensão na Culturgest e no também Teatro D. Maria II.

A dramaturga e encenadora espanhola Angélica Liddell

Desta vez, Angélica Liddell terá a honra de fazer o espectáculo de abertura do festival, no palco do Palácio dos Papas, “onde penso que nunca esteve”, diz Tiago Rodrigues. A dramaturga e encenadora espanhola apresenta um espectáculo criado a partir das instruções que o próprio Ingmar Bergman deixou escritas, até ao mínimo detalhe, para o seu funeral, transformando esta cerimónia na sua última encenação e proibindo qualquer tipo de recolha audiovisual. Durante a residência de 2023, no Festival Citemor, Liddell criou e apresentou, no Teatro Esther de Carvalho, uma espécie de cerimónia igualmente fúnebre (ver fotografia), pequena parte de um espectáculo maior.

Liddel será a primeira criadora a subir a palco, num festival que tem a língua espanhola como convidada. A programação procurará oferecer um panorama que abarque as várias dimensões do castelhano, pelo que haverá lugar para apresentar a produção performativa oriunda da América do Sul, assim como as problemáticas históricas e coloniais. Esperam-se artistas do Chile, do Peru, do Uruguai e da Argentina. Deste último país, a mais importante dos convidados é Lola Arias, que apresentará um trabalho que Tiago Rodrigues aguarda com alguma expectativa: “Um dos projetos que acredito poder vir a ser bastante marcante deste festival será a nova criação da Lola Arias, outra artista habitual nos palcos lisboetas. Depois de uma passagem por Avignon, há mais de dez anos, no contexto da apresentação de um trabalho que fez Stefan Kaegi (Rimini Protokoll), Lola Arias – recentemente vencedora do Prémio Ibsen, que no teatro é equivalente ao Nobel da Literatura – apresenta-se agora com uma nova criação que é a continuação do filme que acaba de apresentar no Festival de Berlim, sobre mulheres transgénero que estiveram detidas e fizeram o processo de transição na prisão.”

Outro dos momentos importantes dos primeiros dias de Avignon será entregue a outra figura bem conhecida dos portugueses, a também espanhola La Ribot. “Parece incrível, mas nunca apresentou um espetáculo no festival. É uma artista que conheço particularmente bem, e com a qual já pude trabalhar. Parecia-me absolutamente inevitável tê-la no festival, ainda mais num ano em que a língua espanhola é convidada, porque é talvez uma das maiores coreógrafas vivas de Espanha”, justifica Tiago Rodrigues. La Ribot apresentará ‘Juana Ficción’, que trata da história de “Joana, primeira de Castela, que, durante muitos anos, e infelizmente, foi chamada Joana, a louca, e esta é de alguma forma um modo de revisitar e recuperar a uma figura de mulher que foi completamente marginalizada”.

“Seria provinciano que os portugueses fossem prejudicados por eu ser português. Portanto, vou tentar exercer a mesma a mesma imparcialidade e objetividade que exerço em relação a todas as outras nacionalidades e convidar convidar artistas pela sua qualidade” ,Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues criou dentro do festival o lugar de artista cúmplice, e chamou Boris Charmatz para o ocupar. O coreógrafo apresenta três obras. “Uma delas é uma espécie de ateliê ao ar livre, de entrada livre, em que duzentas pessoas aprendem a dançar em círculo”. Outro é “Liberté Cathédrale” – a primeira criação de Charmatz enquanto diretor do Tanztheater Wuppertal, de Pina Bausch –, e o último, o mais importante, é apresentado como um dos grandes momentos por Tiago Rodrigues. Trata-se de uma revisitação do espectáculo “Café Müller”, de Pina Bausch. A peça emblemática da história da dança será refeita num ‘loop’ que durará sete horas, como se fosse uma instalação coreográfica visitável num museu. Ao longo dessas horas, nos vários elencos, os intérpretes, alguns dos originais, atuais e também amadores, vão rodando. “Desafiamos Charmatz a pensar qualquer coisa à volta de “Café Müller”, que é uma peça que também foi muito influente no seu percurso”, e que faz jus ao ideia de transmissão, subtexto desta edição.

Portugal terá uma única participação nesta edição. Trata-se de Miguel Fragata e Inês Barahona, fundadores da Formiga Atómica. Apresentam “Terminal, OK”, um espetáculo ancorado no trabalho documental sobre paisagens desaparecidas. “Uma parte da pesquisa foi feita em Avignon numa montanha que ardeu em 2021, e que provocou uma grande tragédia na região. É um trabalho muito forte, e que achamos que merece continuar a ser acompanhado pelo festival. Eles já estiveram no Festival de Avignon, anteriormente, com um trabalho para a infância e juventude, logo este é um regresso, que acarinhamos muito. Seria provinciano que os portugueses fossem prejudicados por eu ser português e, portanto, vou tentar exercer a mesma a mesma imparcialidade e objetividade que exerço em relação a todas as outras nacionalidades e, sobretudo, convidar artistas pela sua qualidade e pela urgência dos partilhar com o público do festival,” explica Tiago Rodrigues.

Recorde-se que Tiago Rodrigues foi convidado a apresentar uma candidatura à direção do festival, cuja decisão final de nomeação decorreu depois de uma reunião com Macron, a quem coube a última palavra. Teve de apresentar uma proposta, e passou por várias fases tal como outros candidatos. A escolha de Tiago Rodrigues rompeu com o passado, já que o festival nunca tinha sido dirigido por um estrangeiro. Tiago Rodrigues sublinhou a sua visão do festival como um lugar feito pelos próprios artistas: “Não é um festival só de distribuição de peças que já existem, mas é um festival que acompanha os artistas quando eles têm ideias e precisam de criar as suas peças. Um festival que discute o mundo, que debate o que se pretende que o teatro e as artes do palco sejam, e que é célebre pelo seu público apaixonado, e por vezes visceral na reacção aos espectáculos.”

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