“Colheste as flores/ da tua chama/ apagaste devagar/ os teus sentidos.”

A voz é de Teresa Paula Brito, perante um auditório em silêncio, na Avenida Visconde de Valmor, em Lisboa, expectante face a um lançamento literário e discográfico que certamente seria recordado nos anos vindouros como um acontecimento notável. Estamos a 18 de Maio de 1971, um dia formador da canção portuguesa, com uma récita de Ana Maria Teodósio, apresentação do poeta David Mourão-Ferreira e cobertura em peso dos jornais, rádio e televisão. Ao lado do palco, de braços cruzados, Maria Teresa Horta recolhe-se enquanto a plateia folheia o seu novo livro de poemas, Minha Senhora de Mime ouve uma versão rock’n’roll a girar na vitrola, que acentua a insubmissão dos versos:

“Sossegaste o corpo/ em sua cama/ desguarneceste em mim/ os teus motivos.”

Os motivos do poema eram claros, a volúpia do sexo que arde desgovernada pelo corpo feminino, que em plena ditadura patriarcal é um «profundo segredo» de «secreto recanto». As canções são urgentes e transgressoras, como o pedra mais instigante que sobrevive ao teste do tempo, e os elementos estão todos alinhados: o cunhado de Maria Teresa Horta, Nuno Filipe, dá um andamento de pedra progressivo, remete para a carnalidade do poema e para aquele instante particular do pedra anglo-saxónico; a vocalista Teresa Paula Brito, exaltada pela critica como a derradeira voz feminina desta geração, vencedora dos Prémios Imprensa, controla a tensão e cicia ameaçadora; e nos bastidores estão os elementos da banda revolucionária de José Cid, Quarteto 1111, que combatiam na linha da frente pelo entrosamento da canção moderna com a tradição portuguesa.

“Que a vela acesa corte a madrugada/ e lhe desdiga a calma e a palavra/ Colheste devagar o meu queixume/ Ó meu amor!/ Ó meu aceso lume!”

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