No momento em que a OTAN assinala o seu 75º aniversário, na quinta-feira, a Aliança assiste a um dinamismo renovado, especialmente com as recentes adesões da Finlândia e da Suécia. Mas a organização também enfrenta múltiplos desafios, desde a guerra na Ucrânia até ao possível regresso ao poder de Donald Trump nos Estados Unidos. Segundo o historiador militar Guillaume Lasconjarias, a aliança transatlântica encontra-se num estado de “paradoxo” entre um renovado sentido de propósito e uma riqueza de novos desafios.

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A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) celebra o seu 75.º aniversário na quinta-feira, numa altura em que a Europa e a própria Aliança enfrentam uma série de novas ameaças. A ocasião também marca os 25 anos da adesão da Polónia, da República Checa (Chéquia) e da Hungria, bem como 20 anos desde que os três Estados Bálticos se juntaram ao lado da Eslováquia, Roménia, Eslovénia e Bulgária.

A Aliança de 32 nações registou uma expansão significativa desde a sua fundando 12 membros uniram forças pela primeira vez em 4 de abril de 1949, nos anos turbulentos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Mas também se vê agora confrontado com novos desafios importantes, nomeadamente o regresso da guerra ao continente europeu com a invasão russa da Ucrânia e as consequentes dificuldades de mobilizar o apoio para Kiev por parte de todos os membros da NATO.

Embora a guerra na Ucrânia tenha sublinhado a importância contínua da aliança transatlântica, também destacou muitos dos desafios futuros. Os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO reuniram-se a partir de quarta-feira em Bruxelas para discutir a criação de um fundo de ajuda para Kiev no valor de cerca de 100 mil milhões de euros ao longo de cinco anos, com o secretário-geral Jens Stoltenberg a declarar que a NATO deve “garantir assistência militar fiável, previsível e de longo prazo à Ucrânia”. .

Guillaume Lasconjarias, historiador militar e professor associado da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, diz que a OTAN se encontra numa espécie de “paradoxo”, ao completar três quartos de século. Por um lado, “nunca esteve tão rejuvenescido e revitalizado – nunca foi tão necessário como nos últimos anos”. Mas ele observa que a Aliança também enfrenta “crises existenciais há mais de uma década, em intervalos bastante frequentes”.

O que motivou a renovação de uma Aliança que o presidente francês Emmanuel Macron chamou de “morte cerebral” há apenas alguns anos?

A OTAN superou alguns dos seus desafios políticos e a percepção da Aliança conheceu uma renovação. A Suécia e a Finlândia aderiram depois de terem permanecido neutrais durante quase 70 anos. A Ucrânia também está ansiosa por aderir a esta organização político-militar e está a fazer mudanças internas profundas para um dia poder fazê-lo. Mesmo os países que estão fora da esfera da OTAN estão interessados ​​em parcerias com a Aliança.

Quando Macron fez esta declaração ao The Economist em 2019, sem dúvida esperava gerar algum tipo de choque eléctrico. Os seus comentários tiveram, em última análise, um efeito positivo, numa altura em que a OTAN já estava a fazer uma reflexão sobre o que deveria ser feito num mundo então em convulsão – Donald Trump estava no poder, a votação do Brexit tinha acontecido e havia questões persistentes sobre o futuro das relações com a Rússia.

Desde então, registaram-se outros desenvolvimentos notáveis, com a invasão da Ucrânia – que foi um rude despertar para toda a comunidade internacional em Fevereiro de 2022 – e com a nova estrutura de segurança revelado na cimeira de Madrid de Junho de 2022, que mudou significativamente a aparência da OTAN (incluindo o avanço da sua presença avançada e a colocação das forças da OTAN em alta prontidão).

Que questões-chave a OTAN enfrenta na cena internacional?

A Aliança ainda enfrenta vários desafios não resolvidos. A primeira delas é que nem sempre há convergência de interesses entre os seus países membros. Além disso, a NATO é uma burocracia bastante pesada e dispendiosa, e por vezes aborda questões que a UE estaria, por exemplo, em melhores condições de tratar. Finalmente, existem ainda algumas questões muito sensíveis no seio da Aliança, como com a Turquia – que por vezes assume uma posição ambígua – ou com a Hungria e a Polónia.

No que diz respeito à guerra na Ucrânia, a NATO é acima de tudo uma aliança defensiva, como Artigo 5.º estipula – a Aliança está a responder à agressão e não prevê um ataque preventivo. Não se envolverá voluntariamente em conflitos, a menos que a comunidade internacional o solicite – através, por exemplo, de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Quanto à adesão da Ucrânia, isso pareceria impossível no futuro imediato. Um país em conflito territorial com um dos seus vizinhos não pode aderir à NATO, pois isso colocaria imediatamente a própria aliança atlântica num estado de conflito. E a NATO não planeia travar uma guerra contra a Rússia.

Como pode a NATO gerir factores de desestabilização interna, como o possível regresso ao poder de Trump, que é muito crítico da Aliança?

Não acredito que os Estados Unidos desestabilizem a Aliança. A ausência dos EUA e a ruptura da ligação transatlântica seriam de facto um momento de crise… algo que já testemunhámos entre 2016 e 2020 (durante a administração Trump).

Quanto ao futuro, existem duas visões opostas. Os mais pessimistas veriam Trump suspender a participação dos EUA no comando militar integrado da NATO, por exemplo. Uma visão optimista seria ver os Estados europeus reagirem (tornando-se mais auto-suficientes). Estes últimos iniciaram uma forma de bilateralismo com os Estados Unidos, especialmente em matéria de contratos de armas. Ao fazê-lo, provaram ser aliados fiáveis ​​que contribuem financeiramente e que, portanto, não faz sentido os EUA abandonarem a NATO.

Mais de metade dos Estados-Membros (18 no total) dedicam pelo menos 2% do seu PIB ao investimento na defesa, o que indica claramente que as democracias da OTAN reconhecem agora a importância de cumprir os Diretriz de gastos da Aliança de 2%.

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Este artigo foi traduzido do original em francês.

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