No interior do posto militar de Fort Moore, na fronteira entre os estados norte-americanos do Alabama e da Geórgia, Jason Koxvold pediu a 120 jovens que se deixassem retratar antes e depois do período de instrução militar básica, também conhecida como recruta, ao longo de 16 meses (entre 2021 e 2023). “As únicas instruções que lhes dei foram: ‘permaneçam junto a esta linha e não façam qualquer expressão facial’”, contou ao P3, numa entrevista a partir de Nova Iorque. Apenas 77 dos 120 dípticos que produziu integram o livro Envolver e destruirpublicado em 2023 pela Gnomic Book.

Em retratos sem nome, os soldados que posam diante Koxvold não entregam ao leitor uma verdade ou conclusão inequívoca. As suas expressões são ambíguas, prestando-se às mais variadas leituras – facto que o fotógrafo considera acrescentar camadas de leitura que tornam o livro mais denso. Outras séries fotográficas já foram produzidas no passado com retratos de soldados antes e depois da guerra, mas não era o objectivo de Koxvold captar essas diferenças. “Eu estava interessado em perceber como uma pessoa comum se transforma num soldado.” Quem são estes homens, a “matéria-prima da guerra”, antes e depois da recruta?

Cada país conduz o seu treino militar básico de forma diferente. “O norte-americano é longo e consiste, em grande parte, num processo de doutrinação que tem como objectivo quebrar o indivíduo e, em seguida, reconstruí-lo na versão soldado. Foi por isso que procurei ver as diferenças entre o primeiro e o último dia da formação.” Mas como se “quebra o indivíduo”? “Por exaustão”, respondeu o fotógrafo.

Enquanto fazia os retratos, em Fort Moore, o fotógrafo ouviu, ao longe, “um cântico alto e agressivo”. Era o “Credo do Soldado”, que contém passagens que aludem para a invencibilidade do soldado norte-americano, para o espírito de equipa e para a destruição inclemente do inimigo. “I stand ready to deploy, engage, and destroy the enemies of the United States of America” é um dos versos dessa toada, que Koxvold adoptou para o título do livro; os restantes versos foram colocados junto das fotografias que realizou.

“É muito interessante ver os homens a entoar o Credo do Soldado no final da recruta”, observa o fotógrafo, aludindo para o quebranto induzido dos recrutas. “Muitos deles estão de muletas ou a coxear, alguns estão acordados há mais de 48 horas. Quando queres forçá-los a serem apenas a sua pessoa primitiva, tudo o resto tem de ser posto de lado, só o essencial pode ficar.”

Para além dos retratos formais, Jason incluiu também fotografias de luta corpo a corpo entre os soldados, que fazem parte do treino de recruta; elementos como o sangue, o suor e a força bruta assumem um papel relevante, do ponto de vista simbólico.

Decorre, durante a recruta, um processo de afunilamento ou apagamento de características de personalidade associadas à sensibilidade ou candura, explica Koxvold. Essa “hipermasculinização”, apelida, “ajuda-os a transformarem-se em guerreiros”. “É assim que eles se autopercepcionam, como guerreiros.” Notou que, naquele contexto, se ouvia com frequência a expressão “optimizar a letalidade”. A vida militar decorre num mundo à parte. “Se enquanto civis tivéssemos como objectivo ‘optimizar a letalidade’, o mais provável era acabarmos na cadeia.”

Koxvold retratou, sem que tivesse assim planeado, apenas recrutas do sexo masculino, que ainda perfazem a grande maioria dos 2,8 milhões que integram o exército norte-americano. O estado de guerra perpétua em que vivem os EUA faz com que seja necessário, para suprir as necessidades da grande máquina de guerra, alistar de forma contínua dezenas de milhares de pessoas – o que se tem revelado, nas últimas décadas, um desafio cada vez maior.

É sabido, sublinha o fotógrafo, que “a maioria dos que ingressavam e ingressam são os mais pobres”. “Sempre foi assim. Na Segunda Guerra Mundial ou no Vietname, os políticos norte-americanos e as suas famílias nunca tiveram de combater. E é muito raro que os ricos se alistem ou sirvam no exército.” São, assim, os jovens de contextos socioculturais desprivilegiados, e cada vez menos brancos, aqueles que mais vão parar às frentes de guerra, com o custo que é conhecido de todos – feridas físicas ou psicológicas potencialmente debilitantes, ou mesmo a morte.

Existem algumas razões de ordem prática que poderão motivar o alistamento dos que pertencem a camadas mais pobres, como o acesso gratuito a educação universitária ou a cuidados médicos – serviços que, não sendo públicos nos EUA, são extremamente caros. “Noutros países, isso não entra na equação no momento em que alguém decide alistar-se”, refere o fotógrafo, acrescentando que estudou na universidade gratuitamente, em Inglaterra.

Nos Estados Unidos da América, “é constantemente ‘vendida’ a ideia de que todas as guerras travadas pelo país, seja em que parte do mundo, servem para defender a liberdade do povo norte-americano”, observa o fotógrafo. “E que sem essas guerras, o comum cidadão não teria liberdade dentro do país. Mas as guerras que os EUA têm travado nas últimas duas décadas, desde que eu sou adulto, não têm nada que ver com a manutenção da liberdade. Na minha opinião, os ataques ditos ‘preventivos’ que têm como alvo países estrangeiros só vieram aumentar a ameaça de terrorismo dentro dos EUA. Em resultado disso, há menos liberdade hoje, no país, do que havia.”

O patriotismo exacerbado, que se manifesta (também, mas não só) no número de bandeiras norte-americanas que adornam habitações, edifícios públicos e privados, carros ou carrinhas, no juramento da bandeira que continua a ser proferido por milhões de professores e alunos, todos os dias antes do início das aulas, tornou-se “muito peculiar” aos olhos do fotógrafo que nasceu na Bélgica, cresceu no Reino Unido e vive, há mais de dez anos, nos EUA. “Quando vim viver para os EUA, sofri um choque cultural. Em alguns aspectos, parece existir mais liberdade nos EUA do que noutros países; mas por outro lado, existe algo de quase ditatorial no nível de doutrinação da sua população, que exibe traços que só vemos em cidadãos de países onde achamos o patriotismo absurdo.”

Outro sintoma desse patriotismo arrebatado, aponta Koxvold, é o comum cidadão norte-americano “aceitar que os EUA podem invadir outros países e ter os seus militares destacados no Niger ou noutro lugar distante qualquer e poderem fazer tudo o que quiserem” sem que o mesmo se aplique a outros países. “É bizarro. Porque existe quase um processo de dissociação cognitiva. As pessoas apoiam essas acções quando são perpetradas pelos EUA, mas se for outro país a fazer o mesmo consideram-nas imediatamente inapropriadas, ilegais, erradas.”

E não parece haver, segundo Koxvold, apesar da queda do número de recrutas, uma introspecção em curso, na mente da maioria dos norte-americanos, sobre o facto de o país viver num estado de guerra permanente – dentro e fora de portas. “Depois do 11 de Setembro, o país mudou bastante. A militarização da polícia normalizou-se.”

A violência, que é omnipresente, aliada ao fácil acesso a armas de fogo no país, torna a situação ainda mais complexa. “No outro dia vi online uma fotografia de um bebé deitado com uma arma à frente”, conta o fotógrafo. “A perspectiva fazia com que parecesse que o bebé estava a fazer mira. A pessoa que publicou a fotografia achou engraçado. Mas é algo completamente absurdo e desumano. A ideia de que, desde tenra idade, prepares a tua criança para morrer, é estranha para mim.”



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