A reunião de 6 e 7 de março do conselho do Banco Central Europeu (BCE) foi marcada por um “consenso de que seria prematuro” avançar com a discussão e decisão sobre um corte de juros, colocando um fim ao ciclo de subida das taxas iniciado em julho de 2022. As atas da reunião publicadas esta quinta-feira confirmam essa revelação feita na altura por Christine Lagarde.

Os membros do conselho consideraram que na reunião agendada para 6 de junho poderão dispor de “mais dados” para discutir o tema, sobretudo por então poderem dispor de mais informação sobre a dinâmica salarial e a sua influência sobre a inflação doméstica (menos sensível à inflação importada).

Os problemas com a “última milha”

Uma das preocupações reveladas durante a reunião foi o facto da inflação nos serviços continuar muito elevada, em 4%, desde novembro do ano passado. Aliás, nas estimativas avançadas esta semana pelo Eurostat para março, essa inflação sectorial manteve-se em 4%.

O comportamento dos salários e dos preços nos serviços alimentam as dúvidas que os decisores do BCE ainda têm sobre a “sustentabilidade do processo de desinflação” (de redução da taxa de inflação), refere-se nas atas. O comportamento da inflação nos serviços é como uma “última milha” no percurso de desinflação, referiu-se na discussão.

Essa persistência dos problemas na “última milha”, juntamente com a incerteza sobre o curso geopolítico e os seus impactos nos preços das matérias-primas e no protecionismo alfandegário, leva o BCE a manter a perspetiva de “manter a política monetária suficientemente restritiva”.

Impacto do aperto monetário ainda não está completo

As atas referem, ainda, que os decisores do BCE estão conscientes de que “uma parte significativa da transmissão da política [monetária restritiva] ainda está em curso, com impactos ainda para se sentirem nos próximos trimestres no crédito fornecido pelos bancos e na economia real”.

Sublinhou-se, ainda, durante a discussão que a própria redução do balanço do BCE tem um impacto restritivo complementar. Recorde-se que o balanço reduziu-se de 6,94 biliões de euros em dezembro para 6,81 biliões a 22 de março e que a carteira de títulos comprados nos mercados desde 2014/15 emagreceu, naquele período, de 4,69 biliões para 4,62 biliões de euros.

Recorde-se que, na última reunião em março, o BCE decidiu manter as taxas diretoras inalteradas em 4% para a taxa de remuneração dos depósitos do sector bancário no BCE e 4,5% para a taxa principal de referência.

As próximas reuniões do conselho do BCE realizam-se a 11 de abril, já na próxima semana, e a 6 de junho, a mais aguardada já na época de veraneio. O conselho é formado por 20 governadores ou presidentes de bancos centrais nacionais do sistema do euro e por seis membros de uma comissão executiva presidida por Christine Lagarde, com o espanhol Luis de Guindos como vice-presidente e o irlandês Philip Lane como economista-chefe.

Nas reuniões de política monetária todos os 26 membros participam, mas cinco governadores não votam, devido a um sistema de rotatividade nos votos. Nas reuniões de abril e junho, o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, tem direito a voto.

Expetativas elevadas para um corte de juros em junho

‘Falcões’ – opositores, em geral. às políticas monetárias baseadas em estímulos – e ‘pombas’ – adeptos de uma política monetária mais amiga da economia – parecem estar cada vez mais próximos nas suas declarações públicas.

Este mês, duas vozes em quadrantes opostos na escala de posições ‘pombas’/’falcões’, admitiram que, na reunião de 6 de junho, se pode aprovar um primeiro corte de juros depois de um ciclo de 15 meses de subidas.

O governador do Banco de Espanha, Pablo Hernández de Cos, um dos sete membros do conselho do BCE tidos como ‘pombas’, declarou, esta semana, que “o cenário principal é para um primeiro corte em junho”. No mesmo dia, Robert Holzmann, governador do Banco Nacional da Áustria, considerado o mais ‘falcão de todos no BCE, admitia “a alta probabilidade de um corte em junho, se a informação disponível permitir essa decisão, esperando que a Reserva Federal (Fed) faça o mesmo depois”.

O ciclo de liderança no discurso público pelos ‘falcões’ do BCE atingiu um pico em julho de 2023, segundo o índice de avaliação avançado pelo portal MacroMicro, tendo registado uma curva descendente desde essa altura. Em setembro do ano passado, o BCE tomou a última decisão de aumento dos juros, fixando-os nos atuais níveis de 4,5% para a taxa de referência e 4% para a taxa de remuneração dos depósitos. O índice da MacroMicro estava em março já 30% abaixo do pico.

As escalas sobre a graduação das posições ‘pombas’ e ‘falcões’ no BCE avançadas pela In Touch Capital Markets e pela Econostream Media estão próximas. As ‘pombas’ estão em clara minoria no conselho do BCE, com apenas sete membros, entre eles Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, e os ‘falcões’ são o dobro, liderados por Robert Holzmann da Áustria e Joachim Nagel da Alemanha. As duas escalas apontam para um grupo de ‘centristas’ entre os dois blocos, formado por França, Irlanda, Malta e o vice-presidente de Guindos e a presidente Lagarde. Atualmente, a presidente do BCE, que, no início do mandato se assumia como ‘coruja’ acima dos blocos, e os governadores de França e da Irlanda estariam mais inclinados para o bloco dos ‘falcões’.

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