Maria do Carmo Gouveia fica-nos na cabeça muito depois de termos acompanhado a sua trajetória, desde o momento em que, menina de 11 anos, foi mandada da aldeia, na Sertã, para Lisboa, para servir na casa de senhores, os Lemos de Almeida, até que, 60 anos feitos e depois de cuidar de um antigo patrão agora com Parkinson, avança destemida pela calçada, dando um novo passo decidido numa história que não acabou.

Falo de uma personagem que, há semanas, entrou para o meu imaginário e para a galeria das figuras inesquecíveis da literatura portuguesa contemporânea. Maria do Carmo é a protagonista do romance “Na Terra dos Outros”, recém-publicado pela Campo das Letras, a estreia de Manuel Abrantes na ficção. O livro é espantoso.

Esta história precisava de ser contada, também desta forma, em ficção. É a de milhares de mulheres que abandonaram, ainda crianças, as suas aldeias e o trabalho no campo para serem “criadas para todo o serviço” nas famílias da burguesia ou da pequena burguesia das grandes cidades, a troco de pouco mais que um “quarto de empregada”, de comida (nem sempre muita) e roupa lavada (por si), quase sem direitos e sempre com o suposto e eterno dever da gratidão.

A história do país é pano de fundo da de Maria do Carmo. No tempo da sua vida, há as rupturas bruscas no tempo coletivo – uma Revolução – e as pequenas alterações do quotidiano. Mas mesmo as grandes transformações, como o 25 de Abril, são diferentes quando olhadas do ponto de vista de quem as viveu dentro de quatro paredes. Como se não fossem inteiramente para si, como se quem mais sofre tivesse sempre mais longe, mais distante de determinar o que quer que seja. Na história de Maria do Carmo estão também as permanências, o peso da desigualdade, da subserviência e da dominação que mesmo processos revolucionários não fizeram desabar.

Elas, as criadas, servem. E servem-se delas: os patrões, mas também o marido, e depois os filhos. Agradecidas por tudo, assim se espera, mas apagadas para não atrapalhar, sacrificando a sua vida em função das necessidades dos outros. E também por isso, como sugere o título do livro, a habitar permanente a terra dos outros: a cidade desconhecida, a casa dos patrões, um bairro estranho, o país estangeiro para onde partiram em busca de uma vida melhor, os ritmos dos senhores, os desejos dos homens… Feitas “fantasmas a organizar as vidas alheias”, como disse Bruno Vieira do Amaral na apresentação da obra.

O romance não é contudo uma litania sobre os pesares da condição servil e a naturalização da desigualdade, embora aqueles e esta estejam brilhantemente descritos. É sobre a vida, com todas as suas contradições e aventuras e descobertas e fragmentos de agência que sempre restam, paralelamente aos sofrimentos calados: decisões que se tomam, mudanças que acontecem, momentos de rara experimentação de liberdade, emancipações mesmo que exíguas e atravessadas pelas diferenças de classe, de geração, de género. É sobre conflitos – entre condições e dentro de si. É sobre as relações sociais, desde logo entre mulheres – as colegas, as familiares, as patroas, as vizinhas… -, marcadas por minuciosos e complexos modos de ligação, de competição, de surpresa, de estranheza, de cumplicidade apesar das diferenças, de inapagável desigualdade.

Um livro assim, documento precioso sobre o serviço doméstico, sobre a condição das mulheres, sobre as estruturas e as relações sociais, sobre as emoções humanas, só podia ser produzido por alguém que, além do talento da escrita, tivesse uma imersão funda nesta realidade. E não é um acaso ser Manuel Abrantes, além de um escritor agora romancista, um sociólogo que há muitos anos investiga e escuta as histórias de trabalhadoras domésticas e de cuidadoras, com uma perspetiva atenta à imbricação de sistemas de desigualdade e das dimensões individuais e coletivas.

Na realidade, este livro vem acrescentar-se a um valioso trabalho de estudo e de visibilização do trabalho doméstico na sociedade portuguesa. É possível olhá-lo como mais uma peça desse puzzle de que fazem parte, por exemplo, “O Tempo das criadas”, obra histórica indispensável sobre a condição servil em Portugal entre 1940 e 1970, da autoria de Inês Brasão, publicada em 2012; o livro “Mulheres em Luta”, de Celeste Vieira, publicado em 2018, sobre a auto-organização das empregadas domésticas entre 1960 e 1986, incluindo a criação do Sindicato do Serviço Doméstico e da Cooperativa Operária de Prestação de Serviços Domésticos; a peça de teatro “Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa”, de Sara Barros Leitão, de 2021, que mergulha no arquivo daquele breve sindicato; as pesquisas do próprio Manuel Abrantes enquanto cientista social; ou iniciativas como o arquivo online e plataforma digital de estudo “Memórias de Servidão”, que pretende recontar a história do século XX a partir da história do trabalho servil.

Nos 50 anos da nossa Revolução, eis um romance notável sobre esse lado tantas vezes invisibilizado na memória oficial da sociedade portuguesa. Comovente e imperdível.

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