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Sabemos que teremos sempre Paris, mas com que Eliseu?

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A capital francesa será palco dos Jogos Olímpicos em agosto, mas em julho estará muito mais em jogo. Depois de uma noite eleitoral de pesadelo para Macron, sem conseguir mínimos olímpicos, o Presidente da República dissolveu a Assembleia Nacional e convocou eleições, interrompendo o mandato que terminaria em 2027.

Quão dramáticos foram os resultados eleitorais das europeias que justificassem uma leitura nacional deste nível e tamanhas consequências? Na escolha dos 81 eurodeputados franceses, o Reagrupamento National de Le Pen foi o grande vencedor da noite, com mais de 30% dos votos e 30 mandatos que irão integrar o grupo político Identidade e Democracia, no polo mais à direita do Parlamento Europeu.

A coligação Besoin d’Europe, dinamizada pelo Renascenla de Macron, obteve menos de metade dos votos e apenas 13 eurodeputados, menos do que os liberais europeus precisavam para reforçar a sua vitalidade – ainda assim a conjugação dos resultados no hemiciclo permite serem importantes na formação de maiorias moderadas.

São ainda de destacar os resultados das outras forças nacionais, como os Socialistas, que se reaproximam e conseguem o mesmo número de mandatos (13). A França Insubmissa de Mélenchon fica perto dos 10% e alcança 9 eurodeputados para a Esquerda europeia, os Republicanos continuam sem se reafirmar autonomamente, com 6 eurodeputados para o PPE, e a coligação da Reconquista de Zemmour, pertencente ao ECR, consegue o mesmo número de eurodeputados do que os Verdes (5), apesar de menos votos.

Os partidos dos líderes dos dois maiores países ficaram fragilizados, pois também o SPD de Scholz, bem como os partidos da sua coligação semáforo, FDP (liberais) e Verdes, ficaram atrás da extrema-direita do AfD e muito distantes da CDU/CSU da antiga chanceler Merkel, maior partido da oposição. A diferença é que há mais do que uma linha imaginária entre o romantismo dos devaneios e o pragmatismo de um sistema racionalizado.

Scholz é primeiro-ministro de um sistema parlamentar, tendo a sua coligação maioria no Bundestag, Macron é Presidente num sistema com um forte pendor Presidencial, e a dissolução de uma câmara do Parlamento onde não é maioritário não afeta o seu próprio mandato até 2027, que não poderá renovar. O eixo Paris-Berlim está enfraquecido, mas não será a visão europeia que busca legitimidade no olhar de Macron.

É verdade que Macron sempre procurou passar por Schumann, mas nunca passou de um pequeno De Gaulle. O assumir da sua agenda europeia e das perspetivas de liderança do eixo político europeu, e com o Brexit, em parte, também o da Defesa, foram muita parra e pouca uva. Agora, em terra de bom vinho quer demonstrar que até ao lavar dos cestos é vindima.

Um ambicioso político, não quer ser um Presidente diminuído. Não quer só voar, mas ter nome de aeroporto. Projeta grandes obras, sem pedreiros para as executar, pois Macron não é um maçon do século XVIII, nem um garoto que siga os pedidos das ruas. Depois de alterar o sistema partidário em França, segue os passos de quem reformou o sistema político.

Se em Portugal nos habituámos a dissoluções, em França é a sexta vez que o mecanismo do artigo 12.º da Constituição é utilizado. Foi exatamente De Gaulle que se estreou nesse uso em 1962, depois de uma moção de não confiança a Pompidou, conquistando a maioria em eleições. Mais tarde, perante os visíveis protestos de maio de 1968, provoca novamente eleições que reforçaram a sua posição.

Também Mitterrand utilizou duas vezes com sucesso este poder, primeiro quando foi eleito em 1981, para garantir uma maioria de esquerda, e em 1988 para terminar a coabitação, embora com uma maioria de sete deputados. Chirac não teve a mesma sorte em 1997, quando quis reforçar a sua maioria: a vitória da coligação de esquerda gerou uma coabitação com Lionel Jospin, que por pouco tinha sido derrotado nas Presidenciais.

Tendo por base o erro de Chirac, Macron conseguiu manter o secretismo desta operação no seu núcleo duro com o intuito de que seja bem-sucedida, apanhando de surpresa a oposição. A pressa é tão grande que as datas escolhidas são as primeiras possíveis (30 de junho e 7 de julho), deixando pouco tempo de preparação aos restantes partidos que as não antecipavam, apesar de as exigirem, tal como Sunak fez no Reino Unido, por razões e meios diferentes.

O sistema de duas voltas não favorece os partidos extremistas, no pressuposto de que os eleitores votam no candidato que repudiam menos e que antagoniza o polo oposto ao seu. Em 577 lugares, o partido de Le Pen apenas assegurou 88 em 2022, e o de Mélenchon apenas 75. A coligação de Macron ficou a 40 de uma maioria absoluta.

O Presidente francês terá certamente encomendado uma sondagem antes de provocar esta situação, porém a sua crença de uma maioria que despreze a extrema-direita só se verificará com as eleições e a composição de um novo hemiciclo. Uma frente popular mais unida à esquerda e o sucesso crescente de novas apostas do partido de Le Pen, como o seu benjamim e novo líder de 28 anos Jordan Bardella, poderão trazer um desfecho amargo ao centro.

Macron sabe que é como a marca desportiva homónima, não é Adidas nem Nike, mas é mais fiável que marca branca. Sabe que a sua política não é tão verde ou vermelha como alguns setores exigem, mas é mais clara que a supremacia branca que outros anunciam. Sabemos que teremos sempre Paris como centro político da França e do nosso continente, mas fica a dúvida sobre qual a força do Eliseu e se o pináculo do regime acelerará a queda da sua estrutura.

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