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Sexo, livros e aquela tarde em 1994

Perdi a virgindade nas Laranjeiras, em Lisboa, em casa da avó do João. Foi há tantos anos, que tenho dificuldade em recordar os pormenores daquela tarde de Verão. Tinha 16 anos e lido toda bibliografia erótico-clássica a que tinha tido acesso na biblioteca do Seixal. Contudo, nada do que tinha lido ou visto em filmes se assemelhou ao que aconteceu na tarde de 21 de Julho de 1994.

Depois de ter visitado uma amiga de infância no Hospital de Santa Maria, internada com uma infecção pulmonar, felizmente nada de grave, apenas ficara sob vigilância, tinha o encontro marcado com o João, o meu primeiro amor. Depois da visita rápida à minha amiga – não conseguia tirar os pensamentos do encontro, por isso não consegui manter a conversa durante muito tempo –, apanhei o metro até às Laranjeiras. Ia tão insegura, a caminho de uma casa que desconhecia, para fazer algo que simultaneamente me seduzia e assustava. Sabia de cor frases de Henry e junhode Anaïs Nin; as imagens do livro visitavam-me enquanto, sentada, via o meu reflexo na janela, no interior da carruagem.

Estava bonita, sim, fizera um risco nos olhos, e pusera rímel e um batom transparente, que tornava os meus lábios apetecíveis. Sabia o que iríamos fazer, estava combinado, e eu estava aterrorizada. O João esperava-me à saída do metro. Trazia uma t-shirt azul-bebé, da cor dos seus olhos, e sorriu, genuinamente feliz por me ver. Tentei retribuir o sorriso mas estava demasiado nervosa, tremiam-me os lábios. Deu-me um beijo ao de leve na boca, pegou-me na mão e disse: “Vamos”. Obedeci, claro. Deixei-me levar. Senti-me muito crescida, mas bastante vulnerável.

A casa da avó do João ficava num 2.º andar sem elevador. As escadas eram íngremes e de madeira escura, os degraus rangiam ligeiramente quando pisados. Chegámos, eu um pouco ofegante por causa dos nervos, ele tranquilo e cheio de entusiasmos, notava-se bem nos seus gestos. Abriu a porta e disse-me para entrar. Para mim ia ser a primeira vez, para o João não. Quase não falámos, levou-me devagar para o quarto da avó. Uma divisão exígua, com uma cama antiga de madeira quase preta, com pilares retorcidos e trabalhados. Achei-a muito feia, tive ainda mais medo. Lembro-me também de um grande tapete de pelúcia branco aos pés da cama e de lhe perguntar pela avó, se não corríamos o risco de sermos apanhados. Respondeu-me que a avó se encontrava na terra, tinha falado com ela por telefone há apenas umas horas, não havia perigo, estávamos à vontade. À vontade é que eu não estava. Lembro-me de pensar que estava bem a tempo de fugir. Bastava inventar uma desculpa, uma dor qualquer, qualquer coisa que me tirasse dali. Por outro lado, queria fazê-lo, estava muito apaixonada por aquele rapaz de dezasseis anos, como eu, tão bonito e doce, com os seus caracóis castanhos escuros e uns lábios rosados, os mais bonitos que eu já vira, quer em filmes, quer na vida.

Começou a beijar-me na boca, sentando-me na cama que era alta e me fazia ficar com os pés pendurados, como num baloiço. A sua língua entrava na minha boca muito devagar. As suas mãos acariciavam-me os cabelos compridos e soltos com gestos muito ternos e envolventes. Estivemos muito tempo assim, sentados na berma da cama, a dar beijos e carícias inofensivas, mas depois a coisa mudou.

A coisa mudou quando me tirou a blusa, puxando-a devagar pela cabeça, e eu fiquei exposta, com o soutien azul de renda, roubado à gaveta das peças sensuais da minha mãe. Não tinha lingerie para uma ocasião daquelas, por isso decidira ir à gaveta da minha mãe, tirei aquele soutien de renda azul, com uma pérola minúscula no meio das mamas, e umas cuecas roxas, também em renda. Bem procurei na gaveta, mas não havia nada que combinasse. Tudo peças desirmanadas e de fraca qualidade, compradas na feira dos ciganos, onde, verdade seja dita, a minha mãe comprava tudo o que vestíamos nessa época.

O João tirou-me a blusa e a respiração dele alterou-se, ficou perturbado. O olhar deixou de ser gentil, e as mãos tinham demasiada força ao tocarem-me os seios. Ou assim me parecia porque, e isto é importante salientar, eu não tinha nenhuma experiência. Nada. Nunca me tinham tocado nas mamas ou no sexo antes daquela tarde. Só uma vez fora apalpada no rabo por um namorado durante um convívio na escola, e tal gesto, que considerei abusivo, fez-me romper a relação imediatamente. Por isso, quando vi o João ficar sôfrego ao tirar-me com facilidade o soutien e abocanhar-me os mamilos, fiquei em estado de choque.

Não conseguia processar o que estava a sentir, parecia-me bom mas invasivo. Dava-me prazer mas era estranho. Despimos as calças de ganga e deitámo-nos na cama. Vi, amedrontada, o volume em riste através do tecido dos boxers brancos do João. Nunca tinha visto um pénis erecto na vida real. E aquilo que estava a acontecer parecia-me não ser a vida real. Disse-me para despir as minhas cuecas, assim fiz. Olhou durante uns segundos para a minha vagina e vi os seus olhos desassossegarem ainda mais. Despiu imediatamente os boxers e pude ver-lhe o sexo. Tive tanto medo, talvez o mesmo que sentia quando era miúda e tinha de atravessar o corredor dos meus avós à noite, convencida de que iria aparecer-me a meio do percurso o lobo mau, de pé, vestido com umas jardineiras vermelhas, tal como na ilustração do livro que eu tinha do Capuchinho Vermelho.

O pénis do João era enorme, pensei, assim me parecia, dada a minha inexperiência, não fazia ideia de que um pénis erecto pudesse ter aquele tamanho, não tinha noção da escala real. Pensei também que jamais iria caber dentro de mim, da minha vagina. Tenho uma vagina pequena e roliça, ainda hoje assim é. O João levantou-se e foi buscar um preservativo ao bolso das calças de ganga, rasgou a embalagem com os dentes. Olhei-o com a curiosidade de quem assistia àqueles gestos pela primeira vez, e queria registá-los para sempre.

Depois, pôs-se em cima de mim e tentou penetrar-me. Eu não estava receptiva, doía-me, e ele — hoje vejo-o — não era propriamente talentoso. Tentava entrar em mim mas não dava. Levou-me para o chão, para o tapete de pelúcia. Tornou a pôr-se por cima de mim, continuava a doer, não conseguíamos. Voltámos para a cama, atravessados no colchão, lembro-me das suas costas sardentas suadas, onde escorregavam as minhas mãos tentando agarrá-las. Finalmente entrou em mim, doeu, mas deixou de doer à medida que se balançava sobre mim.

Não doía, mas também não era bom. Era estranho, senti-o como uma invasão de espaço. Ele estava dentro do meu corpo, o meu pensamento ficou preso nisto. Dentro do meu corpo, um rapaz que eu amava, mas também um estranho, um estranho que entrava dentro de mim. Foi rápido. Ele não devia ter tanta experiência quanto dizia ter. O ambiente ficou estranho depois, apesar da sua meiguice.

Eu sentia-me externa aos acontecimentos, queria ir para casa. Já era final de tarde, disse-lhe que os meus pais me esperavam em casa. Levou-me de táxi até ao cais dos cacilheiros. O João era muito betinho e nessa altura já tinha cartão multibanco e dinheiro para me levar a jantar fora, coisa que fez semanas depois. Já junto ao cais, perguntou-me se tinha sido bom. Respondi que sim. Despedimo-nos, morávamos em margens diferentes do rio. Não sabia se tinha sido bom ou não. No caminho sobre as águas do rio, voltei a lembrar-me de tudo o que lera nos livros. Dos poemas da Maria Teresa Horta, dos textos da Natália Correia, e suspeitava que talvez o problema estivesse comigo. Não sentira nada daquilo que lera. Sentada no cacilheiro, apenas sentia o sexo, que me doía, e uma vaga sensação de mudança em mim, na minha personalidade, que ainda não conseguia dizer o que era.


Este conto faz parte de uma série de contos de Verão, Rosa-Crucificação. Os contos serão sempre sobre Rosa, uma mulher de meia-idade no século XXI, à descoberta da sua sexualidade entre Lisboa e o Porto.

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