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O poder da arte contra (literalmente) o peso do turismo em Barcelona | Turismo

O poder da arte contra (literalmente) o peso do turismo em Barcelona | Turismo

Turismo, turismo e mais turismo. Esta história — com um “final feliz” — fala de turismo e literalmente do peso dos turistas na arquitectura da cativante Barcelona, um dos pólos mundiais da guerrilha antituristas onde hoje se renegam siglas (AL, Airbnb…), se vociferam frases em manifestações de milhares (de moradores) contra os milhões (de visitantes) e se espantam turistas com as armas que estão mais à mão — balas de água.

Este efémero capítulo dessa longa história tem como protagonista Joan Juncosa, arquitecto catalão que a Fugas encontrou há coisa de dois anos enquanto colava as suas azulejos nos espaços vazios entre paredes de azulejos “degradadas e maravilhosas” do Porto. Falámos muito sobre a degradação de cidades turísticas como Barcelona ou como o Porto, que lhe segue alguns maus exemplos. Conversámos sobre azulejos que se perdem, sobre mosaico hidráulico que desaparece sob os nossos pés, e sobre pessoas. “Se não forem reinventadas, as coisas velhas morrem”, disse então Joan, artista de rua natural de Tarragona, que um ano depois colocava cem mictórios nos cantos mais fétidos da “malcheirosa Barcelona”.

Por altura dessa guerrilha urbana contra o chichi na rua, Joan Juncosa encontrou um buraco no banco em frente à Casa Batlló. “Parte do acabamento do quebrado tinha-se soltado”, conta à Fugas, utilizando um termo catalão para uma espécie de mosaico ornamental feito a partir de fragmentos cerâmicos unidos com argamassa, técnica muito característica na arquitectura modernista catalã.



O roteiro esteve pouco tempo à disposição de quem passava.
Laura Guerrero

Os bancos-candeeiros foram desenhados pelo arquitecto Pedro Falqués (1850-1916), numa época em que “Barcelona era uma cidade pioneira, uma referência mundial em arte e design”. Naquele instante, o arquitecto pensou agir (“é preciso fazer alguma coisa”), mas decidiu dar tempo ao tempo — e dar tempo ao município para reparar o estrago. Mediu o espaço entre pedaços de azulejo, fez uma peça que ali encaixaria perfeitamente, um “penso rápido para curar essas feridas”. “Uma tira de arte”, diz Joan, que esperou um ano (“tempo mais do que suficiente”) antes de pôr em prática mais um capítulo da sua guerrilha urbana.

Voltou na Primavera para descobrir não só que o buraco havia crescido, mas que outros bancos da mesma série no Passeig de Gràcia sofriam da mesma patologia. “Bastava andar alguns metros para ver o próximo canto despido. Encontrei um padrão de buracos num dos símbolos mais emblemáticos da cidade. Sinto devoção pelos elementos abandonados da cidade. Tenho pena deles e, ao mesmo tempo, sinto que, como artista, posso fazer a minha parte, valorizando-os novamente.” Não se compromete a recuperar a cidade — a sua intenção não era esconder os danos, mas sim o contrário —, antes colocar em evidência uma série de desgovernos. “Esse é o verdadeiro poder da arte.”



“É óptimo que a mensagem tenha passado”, refere Joan Juncosa
Laura Guerrero


O plano transformou-se então numa intervenção mais ampla, na inventariação dos bancos danificados e na intervenção artística que deu origem ao roteiro Tiritas de Modernismo 2.0, que acompanha sete intervenções e, ao mesmo tempo, alguns dos edifícios mais importantes da cidade. Os bancos são a parte pelo todo, que é o turismo, que sufoca a cidade de quem lá vive. “Acho que é normal que [os bancos] se estraguem. Eles foram pensados ​​para servir os cidadãos, mas agora têm que suportar o peso do turismo. No final, é o nosso património que sofre as consequências. Quero que os cidadãos reconquistem o centro. Que se aproximem e que vejam o que ali têm. Que se sintam novamente orgulhosos desta cidade. E que sintam que é deles. Que voltem a amar o centro.”


Os seus “pensos rápidos” (feitos de polietileno e com uma camada protectora entre a peça original e a sua) acabariam por ser mais eficazes e efémeros do que alguma vez imaginaria. Andava Joan Juncosa a mostrar os retalhos à imprensa espanhola e a dizer “espero que um dia seja restaurado adequadamente”, e o município a aproveitar a deixa para fazer o que lhe compete e, de um momento para o outro, compor os bancos.

“A raiz do projecto provocou bastante pressão social em Barcelona”, contou Joan, “muito contente” enquanto mostrava à Fugas “o antes e o depois”. “Como é que é possível que uma cidade destas tenha o património da rua mais importante de Barcelona e de Espanha assim descuidado? Viram-se obrigados a reparar tudo. Este é o poder da arte! Adoro! É óptimo que a mensagem tenha passado. É o final desta história. E é um final feliz.”



O mapa fica para a história da arte urbana de Barcelona
DR



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