A coragem de Mahamudo Amurane: A premonição

Artigo de opinião publicado na imprensa moçambicana – 15.05.2017

Por: Viriato Caetano Dias

Quem não condena o ladrão, das duas, uma: ou é ladrão ou roubará em ocasião oportuna. Extraído de uma conversa com amigo Hamilton.

Amurane está a tomar decisões certas em fazer desmamar parasitas do MDM que se haviam sido instalados no Concelho Municipal da Cidade de Nampula (CMCN). É uma atitude excepcional, porém, certa de quem está descomprometido com as recompensas partidárias. Falha por ser tardia, a decisão! Os municípios não são propriedades dos partidos políticos. A ausência de uma cultura de Estado leva a que seja muito difícil fazer compreender aos políticos este simples preceito constitucional. Os municípios pertencem ao Estado e, desde logo, ao povo moçambicano. Infelizmente, quando um partido ganha eleições, mormente d oposição, há festança. São assassinadas galinhas, borregos, mbuzis (cabrito), até há sessões de orgia, etc., para comemorar o início da delapidação e escangalhamento dos cofres do Estado. São viagens para aqui, viagens para ali; compras de viaturas de luxo; admissões de familiares, de colegas de trincheira, de comadres e compadres, enfim, de vizinhos, etc., para mostrarem a ditadura (imposição) do cargo. São os tempos da abundância que saciam a qualquer choro, queixa, estômago, etc.

Quando chega ao poleiro, a oposição apresenta uma característica sui generis: mamar da vaquinha leiteira. Ela perde a oportunidade de fazer a diferença, pela positiva, optando pelo espirito da recompensa. Ouvem-se: “agora é a nossa vez”! Não se preocupam em alimentar a vaca, haja leite ou não, a palavra de ordem é “estes gajos mamaram, agora é também a nossa vez.” Sugam-na, às vezes contraindo dívidas, para alimentar parasitas.

Algum desses senhores que Amurane desmamentara de cargos de direcção ou que terá afastado do CMCN constituíam encargos para a edilidade. São contas que não contam para o MDM que havia garantido, na edilidade, alguns lugares para acomodar e amamentar os seus homens da linha da frente do combate partidário. Mas Amurane compreenderá que “fazer contas” não chega; é preciso saber “ler” os sinais do presente para identificar os caminhos que nos conduzirão ao futuro, palavras da reitora Ana Maria Costa Freitas. Os sinais do tempo, não visíveis para todos os seres humanos, anunciam uma tremenda derrota para o MDM nas próximas eleições autárquica, caso não tome medidas estruturais urgentes, porquanto o partido gravita-se em torno de duas principais figuras, nomeadamente o presidente Daviz Simango e o chefe da bancada na Assembleia da República, Lutero Simango.

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Voltemos, então, aos funcionários dispensados. Afinal o que é que eles faziam de tão extraordinário no município para hoje choramingar o regresso? Eu cá tenho uma resposta. Com nas visitas que efectuei a Nampula, constatei que eles eram funcionários acomodados pelo MDM e sem nada de espampanante. Portanto, não vi algo que me admirasse como vejo, por exemplo, no município de Boane. O suor dos funcionários do CMB é de sangue. Está instalado, em Boane, uma administração virada para o povo.

Em Nampula constatei que as facturas da negligência e o fardo da incompetência de alguns funcionários eram endossadas ao município que tinha de suportar, sem anestesia, as dores da má governação. Diga-se em bom d verdade que Amurane deixara andar, durante muito tempo, algumas asneiras. Não que ele não visse, porque estava a cumprir os ditames da disciplina partidária. Afinal porque é que andamos a criticar certos comportamentos dos edis da Frelimo se quando a oposição chega ao poder faz exactamente a mesma coisa e com retroactivos!

Amurane pode querer aproveitar-se desta situação no CMCN para lançar uma campanha como candidato independente no próximo pleito autárquico, o que não é de todo errado em política. A política é mesmo isso: saber jogar os tempos e lançar as cartas (os triunfos) na altura certa.

Uns tantos profetas da desgraça vociferam: “aquele Amurane há-de ver. Ele sofre de amnesia, pois esqueceu-se de que fomos nós que o colocamos no poleiro no CMCN.” Pouca importa. Como diz o treinador do Benfica, “quem caminha e fala para os lados, nunca chega ao seu destino.” Trabalhe em silêncio e faça obras, senhor Amurane. Mas quero dizer mais: no Santuário de Fátima, leio uma frase que sempre me inspira e protege – NÃO TENHAIS MEDO. Pois bem: estamos sempre certos quando nos guiamos pelo silêncio do nosso pensamento. O silêncio é tranquilizador e importante anestésico para aliviar a dor. Mais vale estar sozinho, dialogando com a sua consciência, do que mal acompanhado. Foi o que ouvi certo dia do então primeiro-ministro português, Eng.º José Sócrates: “Nós nunca nos sentimos sozinhos quando acreditamos nas coisas. Só nos sentimos sozinhos quando não estamos de acordo com a nossa consciência. Quando já não nos reconhecemos naquilo que estamos a fazer, aí sim podemos dizer que estamos sozinhos.” Zicomo e um abraço nhúngue a todos os benfiquistas (eu sou do Chingale de Tete).

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